Deste lado, Gilberto Gil, o nosso arauto de mil cores. Deste outro lado, Roger Waters, baixista do insepulto PInk Floyd. Gil militou contra a ditadura militar, foi expulso do Brasil e quase foi para os nefastos porões do DOPS. Roger Waters está quase um Bono Vox da militância das causas internacionais.

Mas Gilberto Gil desceu do ringue, jogou a toalha no ombro, cuspiu no balde, sacou o violão e está mais a fim de sossego.

Explico essa alegoria: Caetano e Gil tem um show marcado em 28 de Julho em Tel-Aviv (Israel). E como judeus e palestinos vivem às turras, pessoas tomam partidos de diferentes lados. Roger Waters tomou o partido da causa palestina e denuncia aos quatro ventos o massacre que Israel promoveu, coincidentemente, uma das muitas ofensivas aconteceu justamente no dia 28 de Julho de 2014.

 

Gil e Caetano desempenharam o papel de voz ativa da revolução durante o período militar e agora estão a caminho de Israel. Como o velhinho não é qualquer bobo, ele já deixo claro que vai e por quê. Diz que cantará para um Israel palestino e fã de música brasileira.

Não quero discutir aqui se Gil e Caetano devem ou não ir à Tel-Aviv (porque né, quem é que entende o conflito Israel x Palestina direito?) E também gostaria de jogar para a platéia a questão de se as artes devem ou não ser engajadas com questões políticas e em especial as questões de guerra. Vá lá, apesar de muita gente ser a favor de desembarcar uma tropa em outro país e sair disparando metralhadoras para todos os lados, eu não me lembro de ouvir nenhuma música (que não seja hino de quartel) que diga isso. Vai ver que é porque eu gosto muito  de música de hippie pacifista (tal qual o Led Zeppelin).

Mas eu postulo a teoria de que a arte não pode deixar de dizer alguma coisa. E por alguma coisa, entenda-se qualquer coisa. Mesmo que a mensagem seja “não quero dizer nada sobre essa questão”. Que foi o que fez Jorge Ben durante a ditadura militar quando compôs em 1969 País Tropical, que é apenas uma declaração de amor ao Brasil (lembrando, o golpe militar ocorreu em 1964).

Há também quem diga que a bossa nova deixou de existir em 1966 por conta da alteração do clima político no país (aqui tem outro artigo legal). Não sei se eu concordo totalmente, mas faz sentido, uma vez que a bossa nova tinha como temática passar uma tarde em Itapuã, olhar a garota de Ipanema e isso não ornava muito bem com pessoas tomando choques elétricos pendurados no pau de arara.

Não é sempre que a arte está à frente dos movimentos sociais. Mas uma obra de arte em geral resume bem o sentimento e consegue resumir a história toda. Ou, mais importante de tudo, a arte consegue resumir o anseio geral daquele momento.

E isso é fantástico! Nenhuma outra manifestação consegue fazer isso tão bem.

Por outro lado, tenho para cá comigo, sozinho, de eu para mim e mais ninguém, que o herói brasileiro não deveria ser necessariamente o artista. O Brasil parece um cachorro sem dono e o Estado é meio isento de muitas responsabilidades, portanto o meu anseio é que os heróis, aqueles que batalham pela igualdade e progresso seriam os políticos, policiais, bombeiros, etc. O homem pode sonhar, certo?

Ao Gil, hoje, ele mesmo diz, não cabe o papel de herói. Muito menos de contestador. Talvez seja seus 72 anos amaciando o coração. Ele jogou esse papel para o hiphop. Faz sentido? Faz. Deveria? Aí é com você. A arte vai dizer alguma coisa. Mesmo o Dadaísmo, que era uma pilha de nada tinha o papel claro de mandar o recado: deixem de ser tão chatos e prolixos.

O Gil argumenta que os dois lados estão certos e errados ao mesmo tempo. O Jorge Ben deixa entendido que o problema não é com ele. Muitas pessoas dizem que quem cala, consente, portanto, se você não tem opinião, você concorda com o opressor.

Eu respondo o seguinte:

You can choose a ready guide in some celestial voice
If you choose not to decide, you still have made a choice
You can choose from phantom fears and kindness that can kill
I will choose a path that’s clear
I will choose freewill
(Rush, Freewill, 1980)

Traduzindo:

Você pode escolher um guia pré fabricado em alguma voz celestial
Se você escolher não decidir, ainda assim você fez uma escolha
Você pode escolher entre medos imaginários ou bondade que pode matar
Eu vou escolher um caminho que fique claro
Eu escolho livre arbítrio

Atualização do artigo em 29 de Julho de 2015:

Caetano e Gil foram, tocaram e não abriram a boca no palco sobre o conflito. Aliás, não falaram nada. Mas tiraram um dia para se informar melhor, conversar com pessoas e lideranças. Veja aqui.

Comentários

comments