Por favor, por favor assista a este vídeo:

Agora assista de novo.

É lindo, é doce, é terno. É um domínio perfeito das técnicas de palhaço. Mas eu não quero falar sobre isso neste momento. Avner Eisenberg, ou Avner the Eccentric é um palhaço americano já veterano que conseguiu dizer em menos de três minutos, a essência de como é importante e como se faz para se comunicar com o público, coisa que eu demorei 5 anos de faculdade e pouco mais de 10 anos de labuta na produção cultural para começar a entender.

(Ponto positivo para as artes, que ensinam com maior profundidade e delicadeza do que a academia.)

É possível escrever uma enciclopédia sobre esse vídeo, porém eu vou tentar resumir o que mais me chamou a atenção no discurso dele.

1. Um artista nunca deveria dizer ao público o que fazer ou o que pensar…

E nem ninguém em lugar algum que esteja dialogando com o público. Seja artista, seja produtor, seja vendedor, ou o que é mais comum, um rolinho primavera das três coisas em uma só pessoa, o que é beeem comum. Não é raro que um artista tenha que empreender e levar sua arte a alguém que vai decidir se vai contratá-lo ou não. E caso seja contratado, esse mesmo artista terá que levar sua arte a alguém que vai apreciá-lo (ou não). Mas é muito muito muito comum que as artes sejam hoje formatadas de forma conservadora na expectativa que o público se comporte. E se conforme! Teatros tem cadeiras, bibliotecas exigem silêncio, galerias de artes tem seguranças, vidros, faixas que isolam o público. E neste cenário prisional, o artista requer respeito do público para conseguir apresentar aquilo que estudou e ensaiou anos para fazer.

Mas nem sempre consegue.

Se já é triste que a nossa estrutura cultural exija que o público comporte-se, mais triste ainda é que a arte esteja lá tentando transmitir uma mensagem calculada. E claro, isso só vai gerar frustração para ambos os lados, como duas pessoas de línguas diferentes tentando conversar. Não vai prestar uma coisas dessas. Além disso, o público não é uma pessoa só. São dezenas, centenas (milhares?) e cada uma possui expectativas e vivências diferentes. Isso faz o artista gastar muita saliva à toa tentando empurrar goela abaixo das pessoas as coisas como elas são.

O que é exatamente o que aquele vendedor chato fica tentando fazer com você na hora de vender uma máquina de lavar roupa.

O bom vendedor, assim como o bom artista e produtor, são aqueles que observam, entendem, dialogam e oferecem algo bom que a pessoa pode estar precisando. Não é alguém que vende areia no deserto e picolé para esquimó. O mundo é muito grande para a gente achar que o que a gente tem é a última bolacha do pacote e quem não aceitar é burro.

Pior ainda é tentar enfiar goela abaixo das pessoas o que elas devem SENTIR.

2. … ele próprio deve ter uma reação emocional e depois permitir e convidar o público a fazer o mesmo.

Acredito que nunca em nenhum momento da história nenhum professor de nenhuma atividade artística tenha dito “não se envolva emocionalmente”. Claro que a produção artística depende da emoção que o artista transborda e emprega no seu trabalho. Na correria do dia a dia, isso pode acabar falhado de vez em quando, mas sem a emoção, a arte desmorona.

Dito o óbvio, vamos à segunda parte da frase dele: permitir e convidar o público a fazer o mesmo. Já isso é um pouco mais difícil. É este o momento em que o artista já abriu o coração, já viu, ouviu e entendeu o público para estabelecer o seu diálogo e agora pode começar a se expressar. Ou seja, você já recebeu e agora está na hora de dar, de estabelecer uma troca. Essa troca começa com a reação emocional do artista de modo a gerar empatia e, portanto, identificação.

Fica aqui a definição de uma profissão abandonada: carpideira. Esta é uma fulana contratada pela família de um defunto(a) para ir até o velório e chorar. Só isso. Tá achando que é brincadeira? É uma profissão e ainda tem gente por aí. Qual a reação da presença de uma carpideira? Causar choro nos outros presentes ou, ao menos, despertar em todos a sensação de que a pessoa no caixão era importante, vai fazer falta, etc.

E isso só funciona porque o ser humano (ainda) tem a capacidade de se identificar com as sensações dos outros. Por isso a gente assiste comediante ruim na televisão e não consegue entender como as pessoas estão se matando de rir na platéia.

O que o público vai levar de você para casa é apenas aquilo que ele encontrou de si mesmo dentro de você. Ou, como disse o Freud, “quando Pedro me conta de João, aprendo mais sobre Pedro do que João”.

3. Se você tem interesse em algo, as pessoas vão prestar atenção. Mas quando você tenta ser interessante, dizendo que eles deveriam sentir interesse você os perde, os afasta.

Existe todo um setor da indústria do marketing dedicado ao marketing digital, ou seja, toda e qualquer forma de relacionamento da marca com o público via internet. Eles dependem muito de viver em constante batalha com o Google e com as redes sociais. Como o Google muda os algorítimos de busca a cada mês ou dois, não existe manha ou malandragem para atrair mais gente para o seu site. Dizem os papas do marketing digital: conteúdo relevante. Conteúdo, conteúdo e conteúdo. É exatamente o caso deste site. Tudo aqui dentro é conteúdo relevante para a vivência artística e a sobrevivência do artista no mercado.

Veja, não estou perguntando o que você quer saber sobre o mercado das artes. Eu estou incrivelmente interessado no que disse o Avner e consegui identificar no discurso dele coisas maravilhosas que fazem sentido para mim. E aqui estou em esmiuçando cada vírgula do que ele falou em um baita texto enorme (para os padrões internéticos) que só mesmo quem está a fim de sobreviver com sua arte vai ler. Tampouco diz em qualquer lugar deste site: leia textos sobre marketing para as artes. Não estou pedindo, mandando ou implorando, estou me divertindo aqui. Sorte nossa, não?

Esta terceira frase do Avner vai em consonânia com a primeira. Não diga o que fazer. Seja aquilo que você quer que as pessoas encontrem. E esse conceito é tão verdade para o palhaço, para o escritor, para o músico, quanto é para a Coca-cola, para a IBM, para a UNIP, para a Suvinil. Ah, mas não é assim que o marketing funciona, dizem os incautos (e os que não sabem nada de marketing). Já foi verdade que a produção industrial se valia de fabricar um milhão de unidades e abarrotar as prateleiras com eles todos iguais. Isso ainda existe. Mas o produto bem pensado vai muito de encontro ao que o cliente. Mesmo que o cliente sinta saudade do produto básico. A Coca Cola bem que tentou lançar diversos produtos. Voltou ao clássico. Já a Pepsi não tem medo de inovar.

A arte padrão, básica, repetida à exaustão tem espaço. É aquela que resolve um problema rápido. Se eu estou com um dia corrido, cheio de reuniões, sem tempo para almoçar, eu quero parar no McDonald’s, comer um xis-gordura daqueles que causa taquicardia só de olhar e correr para o próximo compromisso. Não preciso de um cardápio com 15 opções de entrada, 20 de pratos quentes, 14 saladas e 7 sobremesas. Porém, no fim do dia, eu mereço um cardápio extenso feito por um chef renomado. Por isso algumas pessoas compram reproduções ou latas com os desenhos do Romero Brito. Mas a emoção da descoberta, da surpresa, nunca será substituída. É o que o Avner nos diz ao ensinar como as pessoas preferem ser tratadas na platéia. Ou na prateleira do supermercado. Ou no Google.

Em suma: sinta tesão naquilo que você faz, demonstre isso. Brigue com todo mundo se você precisar. A paixão que transparecer vai contagiar as pessoas que estiverem ali e elas vão naturalmente prestar atenção. Quem não prestar atenção naquele momento pode lembrar mais tarde ou não. Só não adianta marretar na cabeça da pessoa. Dê ao público um espaço para pensar e sentir por si só. Tem gente lerda no mundo, oras.

Tenho certeza que no discurso do Avner você encontrará outras formas interessantes de pensar. A parte em que ele usa a respiração como metáfora para a criação/comunicação é perfeita. Estou vidrado nesse cara. Dá até vontade de ir fazer um workshop dele, mesmo sem saber uma vírgula sobre atuação. Por isso dizem que o artista com o maior status no circo é o palhaço. Esse aí, sabe das coisas.

Comentários

comments