Essa doeu de ouvir. Mas a gente ouve, fazer o quê. E aprende com os nossos erros.

Que o mundo está mudando, ninguém duvida. Mas poucas pessoas aceitam. E nem sempre o mundo muda do jeito que a gente quer. Eu sei que as editoras estão retraindo e falindo. Não é diferente do que tem acontecido na indústria da música, na qual as gravadoras estão também fechando. Mas elas não deixaram de existir. Ainda. Nem as editoras.

A música pulou fora do CD e virou um arquivo. O livro também está pulando fora das páginas e virando arquivo. O processo será lento, claro, mas segundo Sílvio Meira (um tio para lá de inteligente da área de TI) diz, nesta entrevista, a coisa vai ser bruta.

Ela começa explicando que a prensa de Gutemberg destruiu a concepção de livros existentes e desempregou todos os monges copistas. E ainda argumenta que nenhum monge saiu correndo para se atualizar e comprar uma prensa.

E isso demorou uns 50 anos para acontecer.

A internet explodiu faz quase 20 anos e, se a história se repetir, como em geral acontece, daqui a 30 anos não haverão mais monges, digo editores. Vai falir tudo. Mas como de 1450 para cá uma coisinha ou outra no campo da literatura mudou, uma galera vai sobreviver, se renovar e assumir um papel totalmente diferenciado, mas que será rigorosamente o mesmo.

Opa! Cuma?

Seguinte: o modelo desdes últimos 50, 70 anos das artes funcionava com o editor (ou o curador, ou o dono do teatro, da galeria ou o agente ou o empresário) comprando o trabalho do artista, promovendo, distribuindo, vendendo e repassando um direito autoral ao artista. Na literatura, algo perto de 10%. Às vezes menos. Aí surgiu a Amazon e estragou com essa lógica. Hoje o autor pode publicar na Amazon seu livro do jeito que quiser, com total controle sobre o conteúdo e ser remunerado em 70% do valor de venda, que você mesmo determina.

É exatamente o que eu fiz com meus dois livros (veja aqui ao lado).

E é exatamente o que Amanda Hocking fez com seus contos e livros quando ela precisou de uns Us$ 200 para visitar um festival ou feira em uma cidade próxima. Ela colocou seus textos na Amazon e encheu o saco dos amigos e parentes para comprarem alguma coisa por Us$ 1 e juntar o dinheiro. Hoje ela está rica com seus romances de fantasia, muito para  minha inveja.

Mas, claro, para cada Amanda Hocking existe pelo menos uns 10 mil de eu e você. Simplesmente porque ir até a Amazon e colocar os livros lá, não é fórmula de sucesso imediato. É o que o Sílvio Meira argumenta. Alguém precisa escrever e colocar o livro a venda (eu). Alguém precisa fazer com que o público alvo consiga encontrar esse livro (no meu caso, eu também). E esse segundo alguém pode ser um editor novo e especializado. Mas ainda é cedo para que esse tipo de profissional exista, tanto aqui quanto nos EUA. Então a gente vai tendo que se virar.

Eu vou esticar o assunto um pouco: hoje existe informação de tudo quanto é tipo e profissionais especializados de tudo quanto é tipo para que o artista seja seu próprio agente/editor/curador/manager/o que seja. Com um pouco de paciência e boa vontade, o youtube e o slideshare nos ensinam tudo. Então, sim, é possível ficar rico com arte. Mas não vai ser mole.

Essa fulana conseguiu ficar rica em uma das nações com a maior disponibilidade de aparelhos eletrônicos e acessos a internet, mas segundo o próprio Sílvio Meira diz na reportagem, apenas 10% da população americana tem hábito de ler. E no Brasil? Ah, no Brasil não deve ser nem 1%, esse povo vagabundo, sem vergonha que só quer viver de bolsa. Ah, é? Então tá, ó, segura esse aqui para você saber do que está falando:

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Se a pesquisa fala de 70% da população do Brasil sequer abrir um livro (e a reportagem que está linkada mostra que isso aumentou de 65% para 70%), ao mesmo tempo esse dado nos mostra que ainda tem 30% da população brasileira lendo. 30% da população brasileira em 2014 deve ser mais ou menos 61 milhões de pessoas. Eu poderia ser ganancioso e tentar ganhar um dólar de cada um desses leitores, mas como sou bonzinho, deixo por 50 centavos de dólar de cada um que está bom.

É bom notar que essa pesquisa aconteceu apenas no Rio de Janeiro, em um dos estados mais densos do Brasil e provavelmente com uma circulação cultural que não padrão nacional. Mas dá para a gente manter a fé e a esperança.

E se você for ganancioso e quiser aprender a vender US$ 1 milhão na Amazon, é lógico, alguém já hackeou a fórmula secreta (que nem é tãããão secreta).

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