Faleceram em 24 de junho de 2015 um rapaz chamado Cristiano Araújo e sua namorada num trágico acidente de carro, daqueles que existem aos milhares no Brasil. Uma tragédia horrível, assim como é a morte de qualquer outra pessoa. Não existe morte justificada, certo?

Seus amigos ficaram aterrados, a família em choque e alguns músicos famosos declararam que essa foi uma perda inestimável para as artes, enquanto que o meu círculo mais próximo de rede social se perguntava “quem é esse cara”? Alguns órgãos de imprensa desembestaram a querer serem os pioneiros de uma notícia que eles mal sabiam o que era. E quem era Cristiano Araújo, além de um garotão cheio de energia e sonhos, apaixonado pela namorada, bem quisto pelos amigos e família?

Bom, ele era líder de uma legião de fãs que eu e aqueles tais órgãos de imprensa nunca havíamos ouvido falar.

Pobres de nós, que ficamos aturdidos com o volume de informação que existe por aí.

Mas mais pobres ainda porque pensamos que o mundo se acaba no limite do meu facebook, o meu umbigo virtual.

Cristiano Araújo era um cantor de sertanejo em ascensão (aparentemente), e que não era querido da “grande mídia”, uma coleta de meia dúzia de órgãos de imprensa que pertencem a dois ou talvez três grupos de mídia que a gente acha que é o que é de mais importante no Brasil e ponto final, dane-se o resto dessa gentinha que circula por aí.

Seguiu-se um pequeno debate de que havia quem estava no grupo dos consumidores de cultura e quem era povão. Ai, jisuis, apaga a luiz…

Ainda não entrou na cabeça de ninguém que este cara estava construindo a carreira dele dentro de um segmento de música brasileira que não tem nada a ver com, bem, nada a ver com nada. Segmentos de mercado são análises de grupos de interesse desvinculados de qualquer preceito ideológico. Esta reportagem aqui resvala levemente na questão, mas polariza o Brasil em “a turma da MPB” e “a turma do sertanejo”, que é um clichê grotesco, porque torna todos os 205 milhões de habitantes do Brasil em “eles” e “nós”. Ou, ainda pior “quem está incluso na cultura” e “quem não está incluso na cultura”.

Eu sei, eu sei, sempre haverá a Gestalt para nos explicar que o ser humano agrupa os elementos ao seu redor da maneira mais cômoda e econômica o possível. Mas a mesma Gestalt nos explica que o todo não é apenas a soma de suas partes. De onde eu faço uma inversão filosófica que deveria ser crime de tão ruim para argumentar que o público consumidor de cultura não é apenas a soma dos que gostam do que eu gosto e os que não gostam do que eu gosto.

Ou melhor, não é a soma dos “queridinhos da mídia” e os “underground”. Ou a soma de quem está dentro mais a de quem está fora.

Um público consumidor de artes no Brasil é composto de 206 milhões de brasileiros. Cabe ao artista identificar através das características do público consumidor, que é uma coisa para lá de básica da publicidade e marketing, quem é o seu público alvo ideal e aprender a dialogar e interagir com esse público. E aos poucos criar uma base de fãs que dê respaldo para a produção artística.

Se o critério da entender essa reportagem sobre a morte de Cristiano Araújo (e portanto, a sua carreira) é o fato de que o artista está aparecendo na Globo ou não, isso, como vimos, polariza a questão entre “quem está dentro” e “quem está fora”. E se as duas únicas opções da vida são fora e dentro, logo, carreira artística só pode ter dois status: sucesso e fracasso.

Estar na Globo não é medida de sucesso necessariamente. Eu consigo citar de cabeça ao menos 10 grupos musicais que lembro de ter assistido no Programa do Jô, do qual você não ouviria falar hoje.

Ao mesmo tempo, curto bandas que nunca apareceram na televisão.

Houve um tempo em que encontrar o seu público era apenas uma questão de sorte ou de volumes pornográficos de dinheiro. Empresas que lançam um produto no mercado ainda pensam assim. Basta fazer uma pesquisa e identificar que o público preferencial daquele produto são mulheres das classes B e C na faixa dos 20 aos 30 anos com escolaridade no ensino médio, etc, etc.

Hoje o próprio facebook pode fazer isso. E o Cristiano Araújo, em certa medida fez e com muito sucesso, já que na página dele havia mais de 6 milhões de seguidores. Só que eu e você não estávamos lá. Claro que não, não somos o público alvo preferencial dele. Não somos consumidores da arte dele. O que ele tinha eram 6 milhões dos seguidores certos!

Quando a imprensa percebeu que ele tinha seu público cativo e era relevante para muitas pessoas, aí foi que decidiram que valia a pena virar notícia. Vai acontecer com você também, garanto. O lance de ter público e virar notícia e não o falecimento, que fique bem explicado!

O mundo é grande. Tem público para todo mundo por aí, não importa o quão exótica, densa ou inovadora seja sua proposta artística. Vai lá buscar.

E para de assistir Globo, ô meu!

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