Quem nunca ouviu essa proposta mais do que indecente é porque é muito sortudo. Mas calma que ela vem. Acontece na vida de todo artista. Também acontece na vida de vários outros profissionais. Advogados, arquitetos, designers e até dentista já ouviu uma dessas por aí (dentista e médico quando vai em festa sempre atrai um chato hipocondríaco). Claro que os artistas nesse quesito saem na frente.

Nessa hora o jeito é de mandar um sonoro VSF (vai ser feliz!) para quem pediu e ir para casa. Aliás, o grande Luis Di Vasca tornou o VSF em uma obra de arte em si. Veja o blog dele aqui. Vale a pena voltar até o começo, na primeira postagem e ler página por página, degustando com calma e lavando a alma.

Este aqui é o cara e a opinião dele para quem não dá valor a arte

Este aqui é o cara e a opinião dele para quem não dá valor a arte

Para a maioria dos profissionais, saber cobrar corretamente pelo seu serviço é um desafio. Para os artistas, é um desafio ainda maior! Não existem parâmetros específicos e não dá para comparar com o que o resto do mundo está fazendo, porque cada um tem a sua especificidade e também seu momento. Além disso, o artista precisa saber cobrar o suficiente para não desvalorizar a arte frente ao mercado todo (e queimar o filme de todo mundo) ao mesmo tempo em que não pode perder a venda. Um equilíbrio delicado.

Mas às vezes a remuneração de R$ 0,00 pode não ser uma má ideia.

Calma, não joguem pedras ainda. Eu sei o que é essa dor de ter o trabalho sub valorizado. Já tive que explicar com toda a delicadeza do mundo para a pessoa responsável pelo markerting de um shopping recém inaugurado para ela nunca proferir essa frase. Não porque a divulgação do trabalho não seja importante, ou interessante, mas porque o que o shopping poderia oferecer não faria cócegas em uma negociação vantajosa para ambos os lados.

Afinal, muito do trabalho do artista é a divulgação dele.

Mas algumas situações podem ser bastante vantajosas. Essa pessoa com quem conversei não era má, cruel, ganaciosa, etc, etc. A única coisa que ela não entendia muito bem, era de marketing.

Oferecer seu trabalho a potenciais contratantes e transformar um período de trabalho gratuito em novos negócios é realmente uma excelente oportunidade. Mas um shopping pequeno e recém inaugurado não pode oferecer isso. Normalmente, um shopping muito grande e bem estabelecido também não.

Vale a pena aparecer para uma grande audiência? Claro que vale. Mas essa grande audiência tem que ser grande o suficiente para que algumas pessoas ali realmente venham a gastar dinheiro depois. E esse dinheiro tem que ser maior do que o investimento feito para estar ali. O que os shoppings “vendem” para os lojistas é a circulação de público. Um lojista decide instalar uma loja no shopping porque naquele corredor passam 10 mil pessoas por dia e, dentro dessas 10 mil pessoas, provavelmente umas 100 sejam compradores potenciais. Se não, a loja vai a falência.

Para o artista, o raciocínio é o mesmo. O shopping está oferecendo um público de qual tamanho para o show gratuito na praça de alimentação? 3 mil pessoas é realmente uma quantidade grande, porém dentro dessas 3 mil, qual a quantidade de potenciais contratantes? Ou compradores de CDs e DVDs? Por esse raciocínio valeria a pena tocar de graça para mais de 30 mil pessoas? Provavelmente ainda não.

Um programa de televisão tem sua audiência medida em pontos de Ibope. Na cidade de São Paulo, um ponto de Ibope quer dizer 62 mil domicílios, e, portanto, 185 mil pessoas. E para 185 mil pessoas, vale a pena tocar de graça em troca de divulgação? Deve valer, porque o Domingão do Faustão costuma ter uns 20 pontos de Ibope e gente do calibre do Lulu Santos ainda paga para aparecer. E quebra o pau com o apresentador quando não consegue apresentar todas as músicas que tinha planejado. Mas não se preocupe, eles já fizeram as pazes

E para a gente? Vale a pena aparecer na TV? Ou no shopping? Depende. Depende de muitas coisas.

Depende do que se está sendo oferecido. Em primeiro lugar, claro, público. Valeria a pena tocar no shopping para 300 pessoas? Talvez. E se fossem as 300 pessoas certas?Digamos que este shopping estivesse sediando um encontro de todos os donos de bares da cidade. Para um músico, esse não é só um público interessante. É o público preferencial (ok, talvez não para o músico de erudita…)

O Derico relatou que em certa feita foi convidado para apresentar-se com uma de suas bandas em 15 ou 20 diferentes eventos da TAM em todo o país, para em torno de 50 pessoas, recebendo apenas a passagem aérea e hospedagem para a banda. E foi feliz e contente e voltou com um largo sorriso no rosto. Esses eventos eram fechados para os maiores compradores de passagens da TAM, portanto, os donos das maiores empresas do Brasil.

Como não é bobo, Derico aproveitou para negociar também um valor que seria equivalente ao cachê que receberia, porém em passagens aéreas para outros shows que viessem a fazer, reduzindo também o seu custo para os outros shows. Tocou de graça, a TAM não gastou grande coisa, reverteu seus produtos em vantagens e ainda conta com o sorriso fácil do Derico nas salas de embarque (e a simpatia desse cara, realmente é à prova de balas!)

Vantagem para todo mundo, não?

Sabendo dessas coisas, o atual gerente de marketing de uma grande livraria me procurou para também descobrir como movimentar a loja dentro de um grande shopping com atividades culturais. Ele tem um pequeno palco, som, luz, técnico, assessoria de imprensa ativa, redes sociais uma publicação interna (catálogo de produtos), cartazes dentro da loja, etc. E nenhuma verba para cachês. E se tivesse, seria uma merreca que não valeria a pena para ninguém.

Ou seja, nenhuma vantagem.

Com muita humildade, ele me perguntou como viabilizar essas atividades sem fazer a fatídica pergunta do título deste artigo e ainda abriu a opção: como o artista pode fazer para ativar uma vantagem comercial.

Mas o que ele tem que vale dinheiro de verdade é espaço e um público preferencial. Afinal, entrou na livraria, é público para artista. Negociei com ele que cada artista que se apresentasse de graça no espaço dele ganharia um espaço na vitrine principal da loja para exposição de CDs e DVDs e também uma ilha exclusiva com esses produtos na entrada da loja, na cara do cliente que entrar. Esses espaços, assim como prateleiras de supermercados, são disputados milímetro a milímetro pelas empresas que expõe lá. Pode reparar, as melhores marcas ficam entre 1,5 e 1,7 metros de altura, bem ao alcance dos olhos e das mãos. As marcas mais baratas, na prateleira de baixo, quase no chão.

Esta mesma loja possui um espaço no corredor do shopping com cadeiras para leitura. Eles querem colocar lá uma exposição de fotos. A estimativa de público que passa por aquele corredor passa de 1 milhão de pessoas por mês. É vantagem? Novamente, depende. Que pessoas? Qual artista? Para a médias dos artistas plásticos, uma exposição em um shopping é interessante, e talvez apenas interessante. Um artista plástico com um livro ou reproduções a venda na livraria já começa a ficar mais interessante. Para fotógrafos que trabalham com retratos de família, uma exposição lá com distribuição de panfletos é o paraíso.

Alguns artistas terão vantagem com esse tipo de negociação. Outros provavelmente não topem. Vale a pena explorar cada oportunidade que o mercado oferecer para saber escolher as melhores opções e vale a pena, inclusive, perguntar para quem está oferecendo a negociação, qual tipo de vantagem podem ser desenvolvidas junto. O mundo dos negócios pode ser bem criativo também, basta reparar quais as promoções que são feitas por aí.

Caso ninguém queira te ajudar, mantenha este artigo nos seus favoritos para esfregar na cara de quem só quer saber de levar vantagens nas suas costas. E sempre mantenha em mente as seguintes palavras:

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Fonte anônima. Mas para lá de divertido.

 

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