Hollywood é e sempre será o melhor exemplo de como uma marca saudável (leia-se, uma marca presente e ativa) pode trazer grandes resultados para as artes. Sim, as artes tem e dependem de uma boa administração de uma marca. Todas as artes. Os estúdios de Hollywood ultimamente tem se dedicado a fazer mais e melhor uso das marcas existentes. Isso quer dizer, necessariamente, menor risco de investimento para eles. E para nós, isso quer dizer, necessariamente, menor criatividade.

É claro, ainda existe muito filme bom por aí. Mas eles não tem a mesma expressividade onde dói aos executivos – na bilheteria.

Em 2015, as maiores bilheterias foram necessariamente, marcas famosas:

– Velozes e Furiosos 7 (veja bem, 7! Sete!)
– Jurassic World (quarto filme da marca)
– Vingadores, Era de Ultron (segundo filme que incorpora outras grandes marcas: Homem de Ferro, Hulk, Thor…)
– 50 Tons de Cinza (baseado nos livros que venderam milhões)
– Cinderella (sim, a boa e velha)
– Terremoto, A Falha de San Andreas
– Divertida Mente (Pixar)
– Minions (o primeiro vôo solo, mas terceiro filme com eles)
– Kingsman
– Cada Um na Sua Casa

E ainda teve Exterminador do Futuro (o quinto filme), Cidades de Papel (também baseado em livro best seller de um autor que já tinha outro filme também baseado em um livro best seller), O Homem Formiga (também herói Marvel), Mad Max (o quarto filme depois de um hiato de mais de 30 anos) e Dragon Ball Z, que já teve filme depois de muito sucesso na televisão.

Bom, Kingsman – Serviço Secreto não é baseado em nenhuma marca famosa, mas explora o esfarrapado tema de agentes secretos beeeeeeem na linha do James Bond, porém com sátira leve. Cada Um na Sua Casa, e Divertida Mente são duas ideias bem originais, como é típico das animações. Ambas aqui pertencem à marcas bem famosas que amamos: Dreamworks e Pixar, respectivamente.

Os números, infelizmente, não mentem. Em 2015 os velhos conhecidos renderam muito dindin. 2014 foi igual. 2013 idem.

A contabilidade aí de cima deixa claro que, para ter sucesso de bilheteria o filme tem que nascer já famoso e com uma legião de fãs fiéis. Dessa lista, as ideias originais são poucas. Apenas Terremoto, e Kingsman despontam não caem na lógica, o que ainda nos dá a esperança de ver alguma coisa nova no cinema. Mas, como é visível, marcas (ou franquias, como chamam) são tão importantes que estúdios gastam milhões de dólares das formas mais descabidas. Para não perder o ritmo de Velozes e Furiosos e conseguir chegar ao sétimo filme, nem a morte do ator principal (Paul Walker) foi o suficiente para desligar as câmeras. E no Exterminador do Futuro, após muita bobagem, resgataram o velho (sim, velho mesmo – ele está com 67 anos!) Arnie da semi-aposentadoria para soltar o velho e mentiroso bordão “I’ll be back!”. E ele sempre volta…

Vai para casa, Arnie, você está velho (e em muito melhor forma do que eu...)

Vai para casa, Arnie, você está velho (e em muito melhor forma do que eu…)

O desespero da maior indústria cinematográfica mundial em preservar suas marcas é uma dica que nós, reles mortais bem que poderíamos aprender. Não é uma questão de apostarmos sempre no seguro ou de matar completamente a criatividade e passar o resto da vida fazendo a mesma coisa. Isso é um pesadelo suicida para o artista, é claro. E aliás, pode decretar a morte da arte.

O que, por acaso, é exatamente o argumento de alguns críticos. Esta análise brilhante do Alexandre Matias descreve como o abuso da extensão da marca pode ao fim e ao cabo acabar fazendo exatamente o contrário daquilo que ela se propõe, ou seja, ao invés de atrair o público para o cinema, afastá-lo. Ao assistir o trailer do filme do encontro do Batman com o Super Homem, Matias saiu-se com essa muito boa:

“Assistir ao trailer desse encontro épico de mitologias me causou essa péssima impressão de um filme realizado a partir de estatísticas, previsões, finanças e outras análises cruas e hiperbolizadas do que “o mercado” pode querer”

Verdade. Hollywood pode estar abusando da nossa vontade, mas não pelo uso excessivo da marca, mas pelo mau uso da marca. Já assistimos péssimos filmes do Super Homem, mas nem por isso perdemos a fé no Homem de Aço. Ao contrário, a gente sempre vai voltar ao cinema, ou à tv, ou ao que quer que seja que exista por aí. Afinal, somos apaixonados por essa marca desde 1948 (quando ele nasceu). E olha que ele já passou na mão de milhares de roteiristas e desenhistas, já foi morto e ressuscitado, já se uniu a diversos outros heróis e ainda por cima…

… já foi usado e abusado em campanhas publicitárias. Coitado…

Mas, ainda assim a gente acha essas marcas todas fascinantes e apaixonantes. E nos manteremos fiéis, porque a gente gosta tanto dos nossos heróis (e de alguns dos vilões) que quando o filme é ruim, a culpa só pode ser do estúdio, não do herói. A gente perdoa e volta dois anos depois.

A lição do dia aqui é: tenha uma marca confiável. E aproveite a bilheteria de US$ 1,520,593,707 que sua marca pode trazer (bom, esta foi a bilheteria do Velozes e Furiosos 7, mas você chega lá!)

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