O propósito deste site é, para mim, pesquisar o que o mundo das artes está fazendo de bom e conhecer novas vertentes. A partir dessa pesquisa, vou analisar à luz do meu trabalho (marketing e produção do evento) e disseminar o conhecimento que eu adquiri, de forma a criar, quem sabe, uma geração de artistas safos para as coisas do mercado. E olha, eu ando ficando encantado com o que tenho visto por aí. Muita coisa na evolução das artes me dá a sensação de que a humanidade ainda tem esperança. O artista precisa inovar e renovar sempre, claro, mas algumas coisas conseguem ir mais além e realmente mudar os paradigmas de como fazemos e percebemos a arte, criando um mundo totalmente novo e ousado.

Mas nem sempre a experiência é de todo agradável.

E a gente tem que aprender a engolir e entender o que está acontecendo, por mais que seja meio bizarro.

Explico. Sou escritor também (veja aqui ao lado o link “livros”) e aprendi a ler incansavelmente. Obsessivamente. Pornograstronomicamente. Então quando surge uma nova tendência no mercado editorial, vou logo torcendo o nariz. Essa novidade que desponta me fez torcer ainda mais. Mas, vamos os livrar dos preconceitos e tentar entender o que está rolando.

Começou assim:

jardim

Aqui a tecnologia é muito simples. É um livro, a partir da concepção de que várias folhas de papel com informação grampeadas dentro de uma folha de papel mais grossa (e às vezes com verniz) seja um livro. O miolo é uniformemente coberto com imagens de temas florais para você pintar como quiser. E nem uma palavra.

Nenhuma novidade, já que qualquer infância saudável foi abastecida com isso. A única diferença é que este é voltado aos adultos e, como pode-se ver na capa, se propõe ao combate do estresse, problema reservado apenas umas poucas crianças muito especiais.

Deve valer uns R$ 22, R$ 23 por aí.

No esteio dessa novidade, encontrei esse outro fenômeno editorial:

capa_diario

Esse é um pouco mais difícil de explicar. O Jardim Secreto cabia em duas frases. Este aqui não. Este aqui… é… bem… Vamos fazer assim, ó, você vê as imagens e vê o que me diz:

diario4

diario1

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É, mano, este é o conteúdo do livro. O título é incrivelmente adequado. E, convenhamos, é bastante inovador, porque em poucas ocasiões na minha vida me ocorreu de amarrar um barbante na lombada do livro e girá-lo sobre a minha cabeça tal e qual um visigodo invadindo um vilarejo espanhol.

Deve estar beirando os R$ 30 nas grandes livrarias.

A destruição não para por aí. Existe ainda uma meia dúzia de títulos que se propõe a ser diários, manuais de frases, minutos de sabedorias do-it-yourself e até um livro de listas. Aliás, o livro de listas tem uma série!

listografia

Sim, é um livro para você organizar listas. A série chama-se Listography Journal e cada um dos volumes tem um tema: lista de amigos, lista de filmes, lista de músicas, lista de livros e por aí vai. Essa pérola literária funciona assim: no volume música, por exemplo, a página da esquerda possui um cartum da banda Softcell (Tainted Love) e a página da direita o desafio filosófico: liste seus favoritos sucessos únicos. Abaixo dessa provocação intelectual, linhas em branco. Muitas.

Agora segura na cadeira aí que eu vou falar o preço. Cada volume individual pode ser inteiramente seu pela bagatela de R$ 70 (setenta Reais).

Duvida?

preco

Pouco ou nenhum photoshop foi utilizado nessa imagem! (mas eu não forjei os preços – juro)

E esse é o momento no qual você deve estar pensando: eu queria ter pensando nisso antes…

Bom, para encerrar a leva de livros exóticos, vou deixar o próximo para a própria autora contar do que se trata:

E depois do lançamento, foi decidido que o Livro de Marcar Livros será comercializado nas opções azul e roxo.

Livro-de-marcar-livros

 

Esse também chega nos R$ 27.

A propósito desses despropósitos, estou me despindo dos preconceitos para pensar sobre eles um tantinho. Verdade seja dita, papel encadernado não deixa de ser livro, mas ninguém em momento algum disse que eles eram literatura, certo? Então tá. Tem espaço nas livrarias e bancas de jornal para o Sudoku e para as Palavras Cruzadas, porque não um livro de 40 paus que você é estimulado a rabiscar?

E também não é exatamente uma invasão desenfreada de novos títulos nas prateleiras. São apenas algumas novidades. O curioso é que existe espaço nessas prateleiras para livros interativos, que o leitor comprador usuário pode participar ativamente do resultado final do livro. E aparentemente tem mercado para isso, já que o preço está lá em cima e não está difícil de encontrar nos sites das livrarias.

Mas será isso uma tendência? Eu prefiro acreditar que não, mas não sou um grande futurólogo. O que eu tenho são as informações do DataTazzo, o instituto de pesquisa e processamento de bobagens que nos traz essas informações acima e ainda questiona: será esse o futuro da literatura? Por Alá, Oxalá, Buda e Inri Cristo, tomara que não. Mas a gente pode observar mais uma informação relevante oriunda do DataTazzo: a TV não matou o rádio e o cinema, o e-mail não matou os correios (mas matou as cartas pessoais) e os tabletes não matarão os livros. Mas logo ocuparão o seu espaço.

Eu sou um fã hardcore do Kindle, acho um crime ambiental retalhar um inocente pinus (clonado aos milhões) para espalhar Paulo Coelho por aí e estou beeeem feliz com os preços dos e-books em inglês. Os em português ainda são valores exorbitantes. Lendo no tablete da Amazon, a gente não deixa de se perguntar se todos aqueles chips e bytes e apps e cores estão em função apenas da transmissão do texto para mim? Tudo o que eu posso é mudar o tamanho da fonte e a iluminação do fundo? Não tem mais nada do que isso?

Tem, como você pode ver aqui, aqui e aqui. Porém esses links (caso você esteja com preguiça de acessar) são listas de apps que se confundem com livros recomendados para crianças para o Ipad. O Ipad é território livre para a criação. Cada um desses programinhas é colorido, se mexe, pisca, brilha, canta, assobia e sapateia para o deleite do pimpolho que você não tem paciência de educar sozinho e está fazendo birra no banco de trás do carro. Enquanto isso, os adultos vão pintando flores e esquecendo do estresse. Por exemplo o estresse do que fazer com os próprios filhos que estão morrendo de tédio no quarto ao lado.

Não é que o adulto não curta a tecnologia. Mas talvez ele não curta novidades. Ao se pensar que a indústria dos games (de crianças e adultos) não tem nenhum pudor em contar uma história empolgante e envolvente (dizem que o Grand Theft Auto V custou US$ 256 milhões, orçamento de filme blockbuster), os quadrinhos estão rompendo os quadradinhos bem organizadinhos faz tempo e as séries de televisão (assim como as novelas) sempre alteram roteiros levando-se em consideração as opiniões do público, eu me pergunto, quando é que esses fatores se aglutinarão para dar ao leitor uma possibilidade de interagir mais rapidamente com a narrativa.

Mas se o leitor puder decidir quem morre e quem vive, isso diminui o valor do texto?

É muito cedo para pensar que o “ler” se tornará um “criar junto”. Mas a tecnologia que já está fazendo sucesso nos aplicativos infantis pode muito bem vir a influenciar o livro do adulto, talvez de uma forma um pouco mais sutil, mas inexorável.

Isso, é claro, se o adulto não ficar achando lindo só fazer listas e mais listas das coisas que ele talvez venha a fazer um dia. Ou será que só precisamos dar essa notícia para ele de mansinho, começando com uma listinha aqui, uma florzinha ali?

 

Ou será que na verdade, conservador mesmo é o escritor?

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