Para que serve a arte? – a pergunta incômoda da tia Maricota que aparece de vez em quando só não é pior do que a famosa “e além de ser artista, você trabalha?”. Fala sério, tem que ter muita fibra moral para sair dessas situações com um sorriso no rosto e sem deixar sangue espalhado pelo chão.

Essas perguntas incomodam pelo descabido da situação, mas ao mesmo tempo incomodam porque não tem respostas fáceis.

A gente trabalha muito. Mas a gente não sabe muito bem quando, como e onde. É como se a própria arte sofresse de uma terrível crise de identidade bem daquelas de adolescente. Não porque o fazer artístico seja duvidoso, mas porque entender qual o status social que a arte ocupa não é simples. Sabe-se o que esperar da igreja, das forças armadas, da micro empresa, etc, mas não necessariamente da arte.

Conheço artistas às centenas e tenho conhecido opiniões diferentes sobre o assunto. Existe quem pense que a arte tem o papel de documento histórico. Outros pensam que a arte é educação. Outros ainda, que é contestação, como uma vertente política.

Há até quem pense em arte como um emprego. (E certa feita conheci um músico de grande gabarito que tinha alunos músicos de orquestras públicas. Dizia odiar da aula para quem não gostava mais de música. Situação complicada, realmente.)

Eu entendo todos esses pontos de vista e acrescento que a arte é um negócio. Um business. Calma, não fique escandalizado(a) como se eu estivesse pregando a massificação burra de tudo e de todos. A diferença entre eu e seja lá quem for que te convenceu de que negócio só é bom se o produto for ruim é que eu tenho plena certeza e embasamento (semi) científico para dizer que TODA arte tem possibilidade de sobreviver no mercado e ter público cativo e ter apoio de imprensa, produtores, espaços, governos e ser um baita de um sucesso.

Como? Bem, leia este site inteiro. Entre outras coisas, depende da sua definição de sucesso.

Mas, retomando, o assunto: eu acredito, quer dizer, eu sei que a arte é um empreendimento e, sendo profissional de marketing que sou, argumento ainda que, como prerrogativa básica para a arte ser um negócio, é fundamental que exista um mercado para a arte.

E qual é o mercado da arte?, pergunta-me você, artista incauto e ansioso. Respondo-lhe que antes de sabermos isso, precisamos saber o que é “mercado”.

Mercado, oras, é o ambiente no qual se encontram fornecedores e compradores de qualquer tipo de produto ou serviço. Simples assim. Do mercado podem participar outros agentes importantes para essa transação, tais como uma agência reguladora (por exemplo a Anatel que regulamenta as telecomunicações no Brasil) ou ainda um sindicado ou órgão de classe (como a OAB para os advogados), mas fundamentalmente, mercado é onde o fluxo acontece.

Conheci sim, muitos artistas que bradavam que a arte é um fenômeno que não pode nunca estar à disposição do mercado capitalista. Eu respeito essa opinião, porém esse artista, afirmando que sua arte não transaciona no mercado de consumo, necessariamente diz que não pode receber dinheiro ou outro produto pelo seu trabalho. Oras, o mercado não tem definição de tamanho ou de linha de produção, portanto, um único consumidor de arte já qualifica como um segmento do mercado das artes.

Eis aí o porque eu me habilito para dizer que TODA arte terá sucesso. Porque TODA arte pode encontrar o seu público consumidor. A única questão relativa à impressão de se “subjugar ou não ao mercado” é o tamanho deste mercado, e não a ausência dele. Se o músico vende um ou dois CDs por mês no semáforo, ele tem um mercado. Pequeno, mas é um mercado. Se o músico quer vender uma centena de CDs por mês e com isso sustentar-se, isso é outro mercado. Se quiser vender milhares, isso é outro mercado ainda. Saiba escolher o seu e seja feliz com suas escolhas.

Então, pois bem. Há um mercado. Onde ele está? Bem, olhe em volta. Todo mundo pode ser um potencial consumidor de arte. Basta ela tomar parte da vida daquela pessoa ou daquelas pessoas. E não só está por aí como tem a possibilidade de fazer a diferença na economia. Prova disso é que o mercado de consumo das artes pode ser auditado até pela Pricewaterhouse Cooper (que agora chama-se singelamente pwc, mas por extenso é bem mais imponente, não?)

Conheça-os aqui.

A Price é uma consultoria global que trabalha prestando auxilio de todo tipo (jurídico, administrativo, tributário, etc) para outras empresas e, vira e mexe, eles elaboram relatórios sobre mercados específicos. E agora chegou a nossa vez de aparecer em um desses.

Prepare-se, o cenário é de crescimento, mas as notícias não são das melhores.

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Eis aí em cima o a sua primeira má notícia. Esta imagem é apenas uma ilustração da área analisada pela pwc. Veja, a categoria é Entretenimento e Mídia. Dureza, não é? Ninguém gosta de pensar que o status social da arte cai justamente no segmento de entretenimento. E que ainda por cima dorme de conchinha com a publicidade. Mas é a forma como o mercado se organiza.

Motivo principal para isso: é impossível diferenciar nos dados estatísticos o que é arte cult e o que é algo mais corriqueiro. Como saber se os frequentadores de cinema gastam seu dinheiro com filmes de arte ou com blockbusters? Como separar as vendas de livros entre a categoria dos análogos do Paulo Coelho dos que dividem a prateleira com Guimarães Rosa?

Motivo secundário disso (chinelinhas da humildade, meus queridos companheiros): do ponto de vista do consumo, a arte refinada e produto massificado ocupam um mesmo balaio aos olhos do consumidor. Quem define o que é refinado, cult, etc e o que é diversão não é o público. O público gosta do que o público gosta. Lide você da melhor forma possível com isso ou caia fora do mercado.

Mas tornar-se parte do entretenimento é realmente algo tão ruim assim? Vamos lembrar que “entreter” não é apenas um sinônimo de divertir ou distrair. Pode querer dizer também conservar, iludir, engajar. Tornar a arte uma forma de conectar-se com as pessoas em um tempo que não estão trabalhando ou estudando é necessariamente uma diminuição de suas atribuições?

E agora, vamos às outras boas notícias ruins:

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Expectativa de crescimento médio ao ano por segmento

 

Este gráfico mostra um comparativo entre o crescimento médio anual do consumo esperado para o Brasil (em vermelho mais escuro) e a tendência mundial (em rosa). Por exemplo, o primeiro par de barras referido ao acesso a internet nos demonstra que no Brasil o acesso a internet crescerá 17% ao ano nos próximos anos enquanto a média mundial esse crescimento é de apenas 8,8%. Aí vem, publicidade, games, tv a cabo, negócios entre empresas, etc, etc, passa pelo rádio (que ainda vai crescer 3,7% ao ano!!), jornal, e só depois chega nas áreas artísticas, a saber livros e música.

Saber que o consumo de livros no Brasil vai crescer 2,3% ao ano nos próximos anos é uma notícia agridoce. Se por um lado, que bom, tem mais gente lendo, por outro, que droga será que eles vão ler? E porque o nosso crescimento é maior do que a média mundial? É porque o Brasil é um país de ponta que lidera o mundo, em especial na alfabetização e leitura? Bom, a verdade é que a alfabetização aumentou muito no Brasil na última década, mas eu apostaria que ainda estamos defasados em livros por habitantes. O fato de estarmos defasados não é ruim. Pode ser oportunidade para a arte crescer, encontrar o seu público e aparecer ao mundo. A expectativa é que role muito dinheiro no mercado editorial. Em música, o cenário é bem parecido.

Se por um lado o crescimento das formas de consumo das artes é muito pequeno (e vamos manter em mente, é pouco mas cresce), por outro aqueles setores do mercado de entretenimento que apresentam o maior crescimento não são concorrentes da arte. Ao contrário, são os seus veículos. Internet e games podem ser grandes e inovadoras formas de difusão artística, se você pensar nos aplicativos para celular e tablet e não só no Call of Duty. Os veículos estão crescendo, mas quem pode vir a criar conteúdo para esses veículos é você.

O mundo lá fora é grande. Vale a pena enfiar o nariz em todos os lugares. Cedo tarde algo pinta.

Por enquanto, vamos saber onde estamos pisando. Tá aqui o relatório resumido e aqui o completo e em separado os relatórios completos para livros, música e filmes. (clique onde eles dizem “clique aqui para ver o infográfico”)

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