O enredo é o seguinte: em um futuro distópico todas as pessoas, ao completarem 20 anos, podem se inscrever em um processo seletivo. Apenas 3% dos inscritos são aprovados e serão aceitos em um mundo melhor, cheio de oportunidades e com a promessa de uma vida digna. O processo de seleção é cruel, composto por provas cheias de tensão e situações limites de estresse, medo e dilemas morais.

Estamos falando de uma série de televisão que serve para uma metáfora incrivelmente adequada para a produção de cinema e televisão brasileiros.

A peleja começou em maio de 2011, época na qual o projeto ganho sua página no Facebook. A produção dos três (únicos) episódios pilotos postados no Youtube, logicamente, deve ter começado muito antes disso. Parece que o roteiro foi escrito já de olho na batalha épica que seria ter a série comprada por um canal e produzida em temporadas. O crescimento foi impressionante. Já no primeiro mês atingiam 30 mil visualizações.

Hoje (agosto de 2015) o canal oficial da série no Youtube conta com pouco mais de 450 mil visualizações no primeiro episódio, 225 mil no segundo e 248 mil no terceiro. A soma ainda não atinge o primeiro milhão, mas a cifra parece ter sido o suficiente para convencer algum executivo, já que o grupo que idealizou a série está comemorando o fato da proposta ter sido aceita pelo Netflix. Quem é bom de conta já deve ter percebido que o processo consumiu quatro anos e três meses de negociações.

A página oficial do Facebook do projeto dá a fórmula para não cair entre os 97%: conteúdo de qualidade, envolvimento com o público e imprensa.

Qualidade é o quesito no qual a arte brasileira peca calamitosamente. Se por um lado temos artistas fabulosamente criativos, por outro tendemos a ter um descompromisso com os resultados. Em especial, o resultado para o público. No Brasil a arte que tem grande aceitação é considerada necessariamente como um fracasso. Público deveria ser um sintoma de qualidade, não uma prova de que a arte “se vendeu” ou que tem baixa qualidade. Outro preconceito: descuido com som, luz, figurinos, qualidade da imagem, etc em detrimento da direção, produção e atuação. É claro, a verba não é ilimitada e nem cai do céu. Talvez por isso 3% tenha apenas 3 episódios de menos de 10 minutos cada, na busca pela verba maior. Outra evidência da qualidade: o teste kafkaniano pela qual as personagens passam não é originalíssimo; aliás, vai te lembrar de alguma má experiência em entrevista de emprego. O déja-vu tem motivo: a série está em sintonia com tendências de atuais e com anseios do público de hoje.

O envolvimento com o público que fica evidente pelos números do Youtube. Provavelmente o fato dos três episódios estarem no ar tem como objetivo apenas a busca por fãs que os produtores pudessem demonstrar que a ideia tem solidez e é atual. Seria mais fácil andar com um DVD embaixo do braço, mas os comentários, os likes, os compartilhamentos são um ranking de pontuação que faz toda a diferença na mesa de negociação. E a série, produzida pelo Netflix, já nasce conhecida.

A maior parte das postagens na página do Facebook é da repercussão da série em órgãos de imprensa completamente exóticos à produção áudio visual brasileira, como a Wired, por exemplo, que publicou uma dúzia de linhas sobre o 3%. Mais do que suficiente para gerar um link e para engrandecer a adesão. Todas essas publicações reforçam a aceitação do público (diminuindo o risco do produtor) e ainda geram assunto quando a série for produzida efetivamente (como está acontecendo agora).

É um concurso de popularidade? Com certeza. Mas seria um concurso impossível de ser vencido com um produto de baixa qualidade.

E, não nos esqueçamos, apesar da popularidade, a batalha exigiu mais de 4 anos de dedicação. Você teria desistido?

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