Que época para se estar vivo! Caso você acredite em múltiplas reincarnações, claro, ficar deslumbrado com o Netflix não faz grande sentido. Caso não acredite, embasbaque-se comigo pela vigésima vez nesta década. A mais recente prova de que o futuro está aqui é a revolução de costumes que o Netflix está propondo.

Veja que coisa sensacional: o Netflix chegou ao Brasil com uma assinatura mensal perto dos R$ 16, se bem me lembro, oferecendo um produto que, cinco anos atrás eu diria ser impossível. O Streaming de filmes e seriados em uma qualidade bem bacana e um índice de falhas (pelo menos lá em casa), bem pequeno.

E não é que o serviço é compatível com a qualidade da nossa internet (que foi duramente criticada por ser cara e ruim)?

Tanto é que recentemente essa plataforma conquistou o ranking no panteão das grandes emissoras de televisão. Hoje, o Netflix possui um faturamento bruto maior do que a Bandeirantes e a Rede TV. Como a Bandeirantes e a Rede TV são o quarto e quinto faturamento entre as emissoras, pode-se pensar em alguns aspectos que o Netflix hoje é a terceira maior emissora do Brasil, atrás do SBT e da Globo.

Parentese – SEMPRE que alguém sair cantando uma estatística bombástica por aí, leia nas entrelinhas porque aí tem. No caso desta notícia é bom lembrar que estamos falando de faturamento, não de lucro (apesar do lucro do Netflix ser maior do que a maioria das emissoras) e que as emissoras no Brasil são conglomerados de mídia e incluem rádios, jornais, sites, etc. O Netflix é apenas uma plataforma online. Esta informação é surpreendente, mas não vá sair por aí dizendo que a Bandeirantes faliu, ok? – Fecha parentese.

A revolução ao qual me referi no começo do texto é porque o sucesso do Netflix, logicamente, incomodou os grandes do mercado e, não a toa, o serviço está sendo comparado ao Uber (aplicativo de promoção de serviços de transportes particulares). A briga das emissoras contra o Netflix tem o mesmo fundamento das cooperativas e empresas de táxi tem contra o Uber: a arrecadação de impostos e a regulamentação do serviço é outra e, portanto uma concorrência desleal.

O argumento é meio bobo. O Uber e o Netflix são empresas de internet e uma carga de impostos específica (e muito menor). A regulamentação do serviço é diferente, porque empresas de internet tem obrigações diferentes das emissoras. Mas, por outro lado o serviço final prestado ao cliente é o mesmo, portanto a atividade fim é a mesma. A bobice reside no seguinte fato: porque é que NENHUMA empresa ou sindicato de táxi tem hoje um aplicativo próprio? Da mesma maneira, qual a dificuldade que a Globo, o SBT ou qualquer outra emissora tem em fazer um site de streaming?

Deveriam e demoraram, porque a recíproca já é verdadeira. O Netflix já está produzindo conteúdo de alta qualidade, de olho nos mercados nos quais está entrando, como por exemplo a série 3%, de produção brazuca e a série Narco, que conta a vida de Pablo Escobar, estrelado pelo colombianíssimo Wagner Moura (vamos dar um desconto, eles ainda acham que Buenos Aires e no Brasil).

Empresas de táxi, emissoras e TV a cabo estão todas indo chorar no colo do governo porque consideram completamente injusta essa concorrência. Mas eles são todos bonzinhos, veja: estão dizendo que não são contra esse serviço, só que acham que o novo concorrente deveria ser melhor fiscalizado, regulamentado, etc.

Os sindicatos de táxi disseram a mesma coisa. E não pararam de repetir, até quando estavam arrancando clientes de dentro dos carros cadastrados no Uber.

Caso a batalha judicial venha a dar frutos um dia e o novo concorrente tecnológico venha a sofrer alguma perda, como o Uber corre o sério risco de ser proibido no Rio de Janeiro e em Nova York, o estrago já está feito. Tem mais gente no mundo dedicado a encontrar maneiras novas de fazer as coias do que pessoas dedicadas a manterem-nas como estão (ainda bem!)

O mundo mudou. As pessoas mudaram. Hoje eu não conseguiria imaginar uma sociedade na qual o táxi seja um grande monopólio absoluto. Mesmo que o próximo aplicativo seja para estimular a carona em nível mundial, ou venha a disponibilizar veículos militares, ou de aluguel compartilhado de carros.

Aliás, o próprio conceito já está se alastrando para outras áreas.

E, meus amigos, quando você está ficando para trás, é melhor aprender a se mexer. Ou, em níveis mais populares, quando a água bate na bunda, é melhor aprender a nadar.

Por enquanto, não se preocupe, não é você que está ultrapassado. Você é quem está chegando novo no mercado, cheio de vontade, cheio de novidades, novos projetos e ideias. Vá incomodar algum medalhão retrógrado. Você merece. E eles também.

 

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