– Vai dar merda, Coronel, vai morrer gente (Nascimento, Capitão)

– Deja-fu (subst. masc. informal): sentimento que você já se fudeu com algo semelhante antes

 

Não precisa de anos e anos de experiência no mercado cultural para sacar que algo está no caminho do desastre. Talvez apenas alguns anos morando no planeta Terra e uma boa talagada de cinismo. Mas eu consigo reunir as três coisas, então lá vai:

Ministério da Cultura planeja ‘Netflix Nacional’

Não sou só eu, não é? Já deu para ver que isso não vai ser aquele sucesso, não é? A notícia está aqui e, não sendo hoje primeiro de abril nem nada, parece que vai andar mesmo. E, sendo a internet, obviamente alguém mais cínico do que eu já estava com a opinião bem engatilhada:

 

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Eu não sou lá muito fã de propagar as opiniões destrutivas das pessoas por aí. Também gosto de me pensar como um otimista com fé e esperança que o futuro será sempre melhor. Além disso, claro, como produtor que sobrevive de arte e cultura, se o Netflix Brasuca andar, vai ser sensacional para mim, para o artista, para o público, etc. Mas esse cara resumiu meio que curto e grosso o que eu imaginei que estivesse vindo aí.

Mas vamos deixar o cinismo de verdade de lado e analisar a nossa história cultural recente. Não estou prevendo que o NetFlix brasileiro do Jucá Ferreira vai dar errado antes mesmo dele começar porque eu gosto de jogar água no chopp dos outros. Eu estou prevendo esse naufrágio por conta da TV Cultura, do Cine Belas Artes em São Paulo, pelo Cine Paradiso em Campinas, pelo Cine Topázio também em Campinas e muitas, mas muitas outras atividades e espaços culturais espalhados pelo Brasil.

Esses exemplos que cito acima são flagrantes casos de fracasso retumbante. Ok, não foi assim um fracasso de como se uma ideia boa tivesse sido abatida no ar como um kamikaze psicótico. Foi um fracasso mais como um solitário náufrago em uma ilha deserta definhando ao longo de anos e anos e aos poucos morrendo de fome, solidão e tédio.

Caso #1 – Cine Topázio (RIP) e Cine Paradiso (RIP também)

topazio

Não o primeiro e nem o último cinema a fechar. O Cine Paradiso foi outro. Ambas as salas apresentavam uma extensa e interessante programação de filmes “alternativos”. Às vezes nem tão alternativos assim, como uns Woody Allens, às vezes uns alternativos hard core, tipo filmes iranianos, ambos eram iniciativas privadas por empresários de diferentes portes. O Paradiso fechou em 2009 e o Topázio em novembro de 2014. E aí encerram-se as semelhanças.

O Paradiso foi iniciativa de um cineasta e desbravador empreendedor, amante das artes. Ficava em uma galeria pequena no centro da cidade. Era uma sala pequena (nem 50 lugares) e tudo ali exclamava boa vontade e pouco dinheiro. Como fora aberto em 1983, as poltronas eram da época (suspeito eu, até um pouco antes). O equipamento de som e luz não evoluiu muuuuito ao longo do tempo. Houve manutenção e atualização, claro, mas nada que chegue do que entendemos hoje como cinema. A verba era curta. A divulgação, portanto, curta também. Ao longo de quase 40 anos, o público foi minguando das ruas escuras e estreitas do centro e… fechou.

O Topázio era o exato oposto. Não era uma grande marca (como Kinoplex), tinha ar condicionado, poltronas confortáveis, som e luz de última geração, pipoca com tanta manteiga que dá câncer só de olhar para ela e uma boa visibilidade no primeiro andar de um shopping de tamanho médio em um dos bairros de classe média de maior crescimento na cidade.

Os dois cinemas tiveram o mesmo triste destino. Portas fechadas e um gosto amargo de fracasso na boca.

Caso #2

Cine Belas Artes (falecido em 2011, ressurgido das cinzas em 2014)

Guardadas as devidas proporções, tudo igual. Campinas tem 1,2 milhão de habitantes, São Paulo tem quase 12 milhões. O custo de vida é diferente, mas nem tanto e a oferta de cinemas e shoppings, bem parecida. O Cine Belas Artes veio, finalmente à pique em 2011 e, após muita campanha de Facebook, a prefeitura o desapropriou o prédio abandonado. O cinema, tal qual os primos campineiros, era uma parte importante da história da cidade e surgiu das mãos da iniciativa privada. Também foi um bastião da resistência ao cinema comercial. Em 2004, já meio capenga, ganhou uma sobrevida graças a um saudável patrocínio do HSBC, mas não aguentou e foi-se para a memória.

Hoje o Cine Belas Artes chama-se Cine Caixa Belas Artes, graças a um saudável patrocínio da Caixa Econômica Federal e, apesar de ressuscitado e fora da UTI, ainda assim não está fora de perigo. Assim como o HSBC já retirou o patrocínio uma vez, o mesmo poderá acontecer com a Caixa.

Caso #3

TV Cultura

A TV Cultura, a única emissora de televisão que, para alívio dos pais dos anos 80 e 90, fazia frente ao SBT, à Globo, à Manchete e outras que hipnotizavam as crianças abandonadas à babá eletrônica está nessa lista não por que morreu, mas está aí ó, quase no bico do corvo.

Não, não sou eu quem estou dizendo. É o Lucas Silva e Silva:

Como estamos em uma democracia plena (para o bem e para o mal), existe, é claro, pessoas com a opinião beeeeem divergente. Como o Luciano Amaral lançou a campanha “Eu quero a Cultura Viva”, tem gente com vídeos e postagens no Facebook que querem a Cultura morta. Não vou publicar nessa postagem nada da opinião contrária porque não sou do tipo que bate palmas para maluco dançar. Mas resumo a história:

A TV Cultura é uma emissora que consome um volume pornográfico de dinheiro público e a audiência tem diminuído bastante, portanto, é muito dinheiro para beneficiar muito pouca gente.

E é verdade. O maluco infelizmente tem razão. Eu dei uma limpada no discurso porque ninguém merece ouvir que o Estado tem que ser mínimo perto do zero e que o Luciano Amaral (e as outras pessoas do vídeo) são oportunistas em fim de carreira, etc, etc.

Mas sim, iniciativas culturais estatais tendem a ser muito caras e o público muito pequeno. Afinal, um canal de televisão inteiro não pode ser barato. Nem uma orquestra, como é o caso da OSESP. E iniciativas governamentais sempre estarão em risco. Basta mudar o governo e as verbas podem simplesmente desaparecer.

Você pode gastar o resto da sua vida discutindo se é papel do governo ou não estimular e apoiar iniciativas culturais. Inclusive, pode ver se consegue juntar o Luciano Amaral e o doidão do outro vídeo no ringue para se estapearem. Mas o problema maior aqui não é o fato do governo fazer sua pretensa parte ou não. O problema maior é que a única forma de manter uma iniciativa cultural funcionando é se ela tiver público. E muito público.

Isso vale para locais privadas ou públicas, em shoppings ou na rua, teatros ou cinemas. Simplesmente porque a empresa privada vai sobreviver muito bem com lucro e o governante não terão coragem de fechar uma atividade que tenha muito movimento. Conheci um diretor de cultura em Campinas que clamou do prefeito uma reforma no teatro e o prefeito de posse dos borderaux do teatro argumentou que ele não poderia dedicar tanto dinheiro a uma estrutura que a população não usava. E é verdade. A frequência do espaço era bem baixa.

Podemos começar a procurar culpados a vontade. Por exemplo, há o falacioso argumento que com maior investimento em educação as pessoas procurarão mais cultura. Besteira. Mas se fosse verdade, um investimento significativo em educação demoraria 20 anos para dar resultado. Você tem 20 anos para esperar para conseguir tocar o seu projeto?

A cultura sempre estará em risco. E não adianta fazer campanha no facebook. Ou o público vai ao teatro, ou o teatro fecha. Público, privado, ONG, cooperativa, sem público, ninguém nunca vai sobreviver.

E não, a função das estruturas artísticas não é formar o público para que ele enfim comece a frequentar os espaços culturais. A TV Cultura foi fundada em 1960. Se em 54 anos não conseguiu tornar o público um fã apaixonado pelas artes, o que poderia?

Sobrou para nós, companheiro(a). Ou a gente vai buscar esse público, ou morreremos de fome. Tá afim?

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