Eu gosto de acreditar que no fim, tudo vai dar certo. E se não deu certo ainda, é porque não chegou ao fim. Mas eu sou um romântico que eu sei. Talvez ingênuo. Mas vamos dizer que haja evidências científicas de que, apesar de cínico, eu não estou errado o tempo todo.

Eu trabalho (hoje) prioritariamente com leis de incentivo à cultura. Isso quer dizer que minha vida consiste de Rouanet, ProAC, FICC, Ancine e mais uma infindável sopa de letrinhas que me dão a oportunidade de ficar estressado gritando ao telefone, preencher planilhas quilométricas e carregar caixas de som palco acima – e em certa feita, um piano.

Eu também tenho dado cursos sobre essas mesmas benesses que me mantém no telefone, no excel e debaixo de caixas de som.

Adendo importante: caso você tenha recentemente aterrissado de Vênus ou deixou sua caverna subterrânea, leis de incentivo são aquelas que permitem que um projeto seja aprovado para que empresas a patrocinem isentando-as de uma parte ínfima de seus impostos.

Em um desses cursos, abordei com os alunos os seguintes fatos:

Em 1991, ano no qual Fernandinho Collor presidia o país doidão de cocaína e dinheiro dos outros foi promulgada a Lei Rouanet (em substituição à Lei Sarney) que permitiu o desenvolvimento de uma caralhada e meia de projetos de cultura.

Em 1993, então sob a liderança do Itamar Franco, o presidente que não fez porra nenhuma exceto ser fotografado com uma fulana sem calcinha, promulgou-se a Lei do Áudio Visual, que assumiria as atividades de financiamento do cinema e da TV no Brasil.

Essas duas leis mudaram o panorama da cultura nacional. Mas será que foi uma grande conquista?

Vamos às boas notícias primeiro:

1993 – Lei do Áudio Visual (incentivo ao cinema)

1994 – Primeiro ano do Plano Real (uma moeda estável após décadas de hiperinflação).

1995 – Retomada do cinema brasileiro.

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Este gráfico acima demonstra o número de filmes nacionais lançados a cada ano. Foi retirado da tese de doutorado de uma tal Danielle dos Santos Borges, pela faculdade de Barcelona (leia a íntegra aqui, caso você tenha paciência). Faltam as legendas, mas o estudo da Danielle demonstra que em 2005 foram lançados 13 filmes nacionais. Em 2006, 18. E a coisa toda só aumentou ano a ano. Se você tiver paciência de ler a tese toda, verá que existem outros gráficos, indicando que nos primeiros anos da retomada do cinema, a grande produtora responsável por esse sucesso foi a Rio Filmes.

Portanto, a Lei do Áudio Visual fez um milagre no nosso cinema? Bem, não tanto. Ninguém está morrendo de saudade das pornochanchadas. Mas não foi a lei que fez esse milagre acontecer sozinha. Naquele momento da nossa história, o patrocínio das empresas privadas foi fundamental, é claro. Mas apesar de todo o talento nacional, há que se levar em consideração uma série de fatores. Nos anos 80, a inflação era um absurdo. Nível zimbabuano. Isso quer dizer que iniciar o planejamento de um filme com alguns milhões de Cruzeiros Novos queria dizer apenas que esse dinheiro se tornaria centavos dali uns dois anos, que é um prazo bem razoável para produzir, filmar, editar e lançar um filme de longa metragem. A moeda estável de 1994, nesse aspecto, foi fundamental.

Mas, mais importante ainda do que ter uma moeda estável foi o fato de que o então presidente, ateu e maconheiro, FHC criou o Real com um câmbio artificialmente valorizado em relação ao Dólar, ou seja, cada Real valia mais do que um Dólar e, portanto, comprar equipamentos importados e trazer profissionais da gringa ficou baratinho.

Aí o cinema nacional tomou rumo. Porque não faltava vontade, dinheiro, talento e equipamento.

Mas tomou rumo em termos, porque se essa lei deixar de existir ou mudar muito, o rumo desaparece e o cinema brasileiro (e a produção nacional para TV) vai voltar a vagar como beduíno bêbado montado em um camelo cego. Explique-se: a industria do cinema, como um todo não dá lucro. Não se paga. E sem lucro, menor que seja, não se sai de casa.

Outro adendo interessante: há um boato, não confirmado, de que no mundo todo apenas 3 países tem indústrias cinematográficas auto-suficientes: EUA, França e Índia (alguém aí já assistiu algum filme de Bollywood? Recomendo). Isso não é dizer que incentivo não exista, mas que a indústria como um todo dá lucro e faz com que novos produtores continuem buscando inovar e ampliar as atividades. Faz sentido não?

O modelo lei de incentivo é fundamental para que uma indústria surja. Foi o que aconteceu com a imensa malha rodoviária brasileira, porque lá para a década de 40 era necessário fazer o Brasil crescer como economia. Para isso criou-se a FNM, apelidada Fenemê.

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Logotipo da FNM que mais lembra a bandeira de um país no oriente médio

Para rodarem os pujantes caminhões brasileiros, muitas rodovias eram necessárias. E muitas peças de reposição, seguro, motoristas, etc, etc. E assim gerou-se uma indústria do transporte rodoviário com milhares e milhares de empregos e um alto recolhimento de impostos. E a malha ferroviária e hidroviária foram relegadas ao abandono geral.

O governo criou um estímulo para a que a indústria do transporte rodoviário se desenvolvesse até o momento em que não precisasse mais do estímulo. É o que aparenta estar acontecendo com o cinema nacional. Exceto que, por enquanto, ainda não vingou. O cinema brasileiro não vai sobreviver sem estímulos.

E o que faria o cinema andar com as próprias pernas? O público. Salas lotadas.

E como lotar salas de cinema? Ah, aí é mais complicado. O filme tem que ser bom? Besteira. Esqueça qualidade. Qualidade é completamente subjetivo. Mais importante do que isso, o cinema tem que dialogar com o público, conhecer anseios, prever tendências sociais, entender a sociedade. E isso é só na tela. Antes de chegar lá tem que ter estacionamento, carpetes, muita divulgação, promoções, estar próximo às pessoas, oferecer segurança, atendimento de qualidade, etc, etc.

Coisas que governos não são muito bons em fazer.

É fundamental para qualquer setor que haja estímulo (e boas condições) para a oferta dos produtos a serem desenvolvidos, coisa que o governo já cumpriu maravilhosamente bem no cinema. Mas a oferta só se sustentará se houver demanda. E se o público não demanda por esses filmes, o frágil modelo de leis de incentivo vai acabar se esgarçando.

Aí, meu velho…

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