Finalmente, alguém lembrou de procurar pelo público! A imagem (acima) circulou muito rapidamente nas redes sociais de sempre e parece já ter desaparecido. Pelo jeito, alguém lembrou. Mas provavelmente esse mesmo alguém já desistiu de procurar. Acredito que esta seja uma preocupação real e verdadeira de muitos artistas, enquanto outros afirmam que achar o público, cobrar o ingresso e colocar para dentro do teatro / galeria / biblioteca seja função de algum produtor, editor, agente, empresário, etc.

Não é.

Essa imagem, que não é de minha autoria me faz acreditar que o segundo grupo esteja diminuindo. Não, eu não posso tirar a razão deles. Afinal um artista de qualquer vertente tem que estudar anos e anos para sua formação para depois pesquisar ainda mais sobre o que for que deseja criar e apresentar, para depois analisar cuidadosamente cada etapa, voltar, recomeçar, resgatar o anterior, pedir opiniões de colegas e ainda produzir / ensaiar / revisar, etc, etc. Não é pouca coisa e não é todo mundo que tem competência e dedicação para fazer, ainda mais em um país como o nosso que o apoio à arte é pequeno.

E com todo esse trabalho, a pessoa ainda tem que entender de produção de eventos e divulgação para atrair público? Isso é exatamente cobrar o escanteio, cabecear e sair para comemorar tudo junto. É correto isso? É justo exigir isso de um artista?

Não, é claro que não.

Mas qual é a outra escolha? Em um mundo ideal, pessoas valorizariam a arte pelo que ela é e fariam filas quilométricas nas portas do teatro. Mas isso não está acontecendo. E não tem para quem reclamar. Daí, entendo que temos duas opções: 1) fazer algo a esse respeito ou 2) choramingar e reclamar e esperar que alguma coisa um dia talvez melhore miraculosamente.

Então porque pensar no público? Primeiro de tudo porque a gente precisa pagar as contas. E não vai ser esperando cachê cair do céu que isso vai acontecer. A presença do público sempre foi e sempre será o único e principal motivador de todo o tipo de produção cultural, inclusive as gratuitas. Isso é porque na verdade se existe uma portaria gratuita para uma apresentação, alguém está pagando essa conta. E seja quem for, por mais filantrópico que seja, está buscando que esse investimento atinja o maior número de pessoas. Até mesmo o SESC, que precisa justificar o uso das suas verbas para a central. Patrocínio não é dinheiro de graça. É uma troca.

Mas talvez o aspecto mais importante de se buscar o seu próprio público é porque esse público é seu. É o que marketing chama de fidelização do cliente, que é um nome autoexplicativo. Fidelizar o cliente é tratá-lo tão bem que ele sempre volte para você e não para a concorrência. Simples assim.

Maaaaaaas, você está pensando agora, o público não é cliente. A arte não tem clientes. O público é divino, sagrado, maravilhoso e não é fruto dessa perversão maquiavélica que é o capitalismo porco e ganancioso. Quem tem cliente é açougue.

Ledo engano. Público é tão cliente para você quanto pacientes são para um médico. Ou passageiros são para uma empresa de ônibus. Ou hóspedes são para um hotel. Mas o dinheiro vem daí. E a possibilidade de aumentar o seu cachê também vem da sua capacidade de atrair o público, ainda que o público pague para o produtor e o produtor te pague um cachê fixo.

Bom, dica do produtor: o artista que ganha o maior cachê é aquele que atrai mais público e eu tenho que dar menos explicações de porque o teatro estava vazio para o meu patrocinador.

Mas a gente não anda por aí dizendo que precisa de cliente, e sim que precisamos de público. Isso é porque a primeira regra do clube da arte é que você não fala sobre o clube da arte. E a segunda regra do clube da arte é que você não fala sobre o clube da arte.

Você pode não se entender como uma empresa, como um açougue. Mas você é um empreendimento. Ou ao menos, um empreendedor(a). Uma empresa de uma pessoa só. Simplesmente porque da mesma maneira que o açougue tem aluguel, luz, água, telefone, internet e produtos para pagar, você também possui seu aluguel, luz, água e produtos para a realização do seu trabalho. E o dinheiro para pagar essas contas e ainda sobrar para uma gelada, tem que vir de algum lugar. E eu sempre entendi que, quem eu recebo dinheiro é meu cliente e para quem eu dou dinheiro é meu fornecedor.

Uma outra forma de pensar o público é a boa e velha denominação de fã. Funciona também. Mas o dinheiro flui no mesmo sentido. É como funciona o capitalismo e isso não está com cara de que vai mudar tão cedo, infelizmente.

A pergunta que nos resta é: cadê o cliente/público? Bom, a verdade é que o cliente está por aí, por todos os lados. Cada pessoa na rua pode ser um cliente em potencial, especialmente para a arte que é dotada de uma carga emocional enorme e é acessível para qualquer um que tenha acesso à internet (ou seja, uns 70% da população do planeta). Isso quer dizer que, se você não consegue encher um teatro na sua cidade, talvez você queira tentar em um outro teatro brasileiro a 5 mil km de distância. Ou em outro continente. Vai que rola?

E se você acha que a sua arte é muito complexa e não tem nada a ver com um monte de gente e o povão gosta mesmo é de blá, blá, blá… isso significa que você anda passando muito tempo em cima do palco e pouco tempo na plateia, observando as pessoas. Todo mundo é cliente potencial e especialmente aquela pessoa que diz “eu não entendi nada mas eu gostei”. Público alvo é outra história e você não precisa se preocupar com isso por enquanto. Precisa se mexer, se engajar, conversar com as pessoas. E depois voltar para cima do palco e fazer com que sua arte “converse” com as pessoas.

Já contei do exemplo do Lenine que aprendeu que a melhor estratégia de comunicação digital é o abraço. Mas quem melhor nos ensina, nesse momento, o que é conversar com o público, é a Amanda Palmer (em inglês, mas as legendas do Youtube para português estão boas):

Coisas que essa rapariga sensacional nos ensina:

1) e daí que sua música é específica? É sua. E sim, tem gente por aí que vai saber apreciar. Basta você conversar com eles;

2) fãs são ducaralho! Converse com eles, interaja, não tenha medo de olhar no olho e eles sempre estarão com você. Até quando você precisar de US$ 1,2 milhão;

3) o mundo recompensa sucesso; se você está dando certo, uma gravadora vai se interessar em você. Até lá, você vai ter que se virar e,

3) sobrancelhas são apenas uma convenção social. Inventa um treco novo aí.

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