Talvez a pergunta mais difícil de ser respondida que um artista faz no seu dia a dia seja “quanto eu devo cobrar por este ou aquele trabalho?” Realmente, não existem respostas fáceis. Aliás, o fato de que existe diversas respostas também não ajuda muito.

Hoje você já deve ter uma ideia aproximada de qual o valor pelo qual vale a pena sair de casa e qual não vale. Mas sempre acaba ficando uma pequena dúvida se você poderia estar ganhando mais ou se poderia estar fechando muitos mais trabalhos se cobrasse menos.

Como saber? No Brasil, a gente vai no peito e na raça. Mas a gente também pode aproveitar para aprender com quem ganha MUITO dinheiro. Como fazem as estrelas do cinema?

Ontem à noite, Hollywood se espremeu em vestidos de grife minúsculos para desfilar no tapete vermelho e disputar ainda mais uma estatueta (eles são cheios disso: emmy, grammy, tony, bafta, oscar, etc). À primeira vista, imaginamos que um prêmio desses de relevância internacional, transmitido ao vivo para o mundo todo seja um maneira ótima de valorizar o passe do artista e justamente impulsionar a carreira e aumentar cachês.

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Será?

Além de um grande afago no ego, será que esses prêmios são tão relevantes para a formação do cachê do ator hollywoodiano? Será que o Wagner Moura escapou por um triz de ficar milionário? Há quem diga que o Globo de Ouro é um passo ao caminho do Oscar, que seria outro grande degrau rumo ao panteão dos deuses.

– Cá. licença, tio, tô passando.                                                               – Nossa, doida, vai lá!

Mas qual é a efetiva contribuição? Rola um feeling? Ou será que existe uma fórmula secreta que mensura esses cachês?

Pior é que existe!

A revista Volture elaborou junto a uma empresa de pesquisas chamada E-poll uma fórmula para calcular o valor de cada um das maiores celebridades hollywoodianas. O resultado obviamente não tem força de lei, afinal o sindicato dessa galera tem bastante influência e ao fim e ao cabo, a negociação sempre pode variar. Mas é um indício muito forte do que está acontecendo e, mais importante do que isso, é uma maneira de entender como se constitui esse valor.

Neste artigo, a revista explica detalhadamente a metodologia (em inglês), que eu busquei resumir.

Quais os fatores que formam o “valor” do artista:

1. Bilheteria dentro dos EUA

2. Bilheteria no resto do mundo – sim, os EUA ainda são os maiores consumidores de cinema, portanto a bilheteria interna está a par com a soma de todo o restante do mundo. Basta lembrar que o Brasil ainda tem perto de 2.500 salas de cinema apenas (para quase 5 mil cidades e uma população de 200 milhões).

3. Valor em estúdio – através de entrevistas com vários dos maiores executivos de cinema a revista conseguiu extrair uma nota de 0 a 10 para cada estrela, estabelecendo o quanto os executivos acham que cada uma aumentaria as possibilidades de sucesso de um filme.

4. Familiariedade – na pesquisa original, esta métrica foi denominada “Likability”, de like (gostar) e mede o quanto pessoas gostam de determinado ator ou atriz. A pesquisa foi feita através de entrevistas entre pessoas comuns nos EUA. Mas, importante, as pessoas primeiro precisavam identificar a pessoa por rosto ou nome.

5. Oscars – indicações ou prêmios efetivamente recebidos. Mas apenas dos Oscars!

6. Crítica – pesa também a nota que cada celebridade recebeu através de seus filmes vindas do site Metacritic, que é um site que condensa críticas dos principais críticos do mundo, como eles explicam aqui.

7. Menções no Twitter – quantas vezes o ator ou atriz foi mencionado(a) no Twitter. Sim, apenas no Twitter. Nada de Facebook, Instagram ou Youtube. Só Twitter.

8. Tablóides – da mesma forma que os executivos, editores de revistas de fofocas atribuíram notas de interesse de seus leitores, seja escândalo, notícia cotidiana ou só porque eles são fofos.

Essas oito categorias somadas formam uma nota que é o valor do artista em Hollywood. É claro que cada uma dessas métricas obteve um peso específico, o que também é uma informação importante para entendermos como eles pensam por lá:

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É claro, no mundo ideal, o valor verdadeiro do artista deveria ser dado o seu talento, estudo, comprometimento, mas infelizmente, segundo os gringos, 30% do “valor” de um artista vem da bilheteria que ele ou ela gera, enquanto que a opinião dos críticos sobre esse mesmo trabalho, vale apenas 8% e o prêmio mais cobiçado, apenas 7% de peso na nota. No pragmatismo protestante americano, dá para notar que o seu valor é o valor que você gera. Claro, em dinheiro efetivo, mas também em imprensa. Apesar da opinião dos tablóides ocupar apenas 5%, os tablóides, o twitter e a familiaridade somam 25%, que são métricas que vem da participação do público, sendo que a mais relevante (familiaridade), segundo o artigo, demonstra que é a simpatia e o envolvimento da celebridade que conta.

Não é uma regra alienígena para nossa realidade. Seja qual for a arte e seja qual for o artista, em algum momento o contratante vai calcular qual o retorno que ele terá ao estar desenvolvendo algum projeto ou uma apresentação desse artista. Não precisa ser necessariamente financeiro, mas é importante que seja vantajoso de alguma forma.

Se não houver algum crescimento para artista, contratante e público, a arte deixa de se tornar um estilo de vida e se torna caridade.

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Esses argumentos acima todos podem ser utilizados para confrontar o contratante porque todos estão ao alcance do artista brasileiro, mesmo iniciante – exceto o Oscar (por enquanto!). Por exemplo, é complexo contabilizar a bilheteria das apresentações e dos eventos sempre, mas é possível manter um diário de borderô para poder explicar aos contratantes quanto você consegue atrair de público para os eventos (mesmo que o mérito de atrair esse público não seja só seu).

Você pode ter, como a maioria das empresas tem na internet, depoimentos dos seus contratantes, exaltando sua competência, dedicação, pontualidade, etc. Ok, para isso lembre-se sempre de ser competente, dedicado, pontual, etc. Um portifólio de depoimentos de valor do estúdio pode fazer com que seu próximo contratante se sinta mais confortável ao contratar você.

Colecione também matérias, críticas, prêmios, comentários nas redes sociais (mesmo as da sua mãe) e também menções e participações em festivais, coletâneas, etc.

E, por fim, mantenha um relatório atualizado dos números das suas redes sociais e o nível de interatividade que você tenha: instagram, twitter, facebook, youtube até mailing. Juntando todos esses itens, você poderá andar para cima e para baixo com uma basta que conta a história da sua vida e suas maiores conquistas, tendo excelentes argumentos para demonstrar para quem for que você é sério com o seu trabalho e tem obtido resultados favoráveis. Isso com certeza valorizará o seu passe e tornará a sua carreira muito mais fácil e produtiva.

E bons negócios!

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