Você já deve ter visto por aí um vídeo de um moleque magrelo com cabelo tingido tocando um saxofone barítono que provavelmente pese tanto quanto ele e dançando como se estivesse tendo um espasmo epilético no metrô. Ele chama-se Leo P e é um terço de uma banda chamada Too Many Zooz. Completa a banda Matt Doe (trompete) e David Parks que apresenta uma curiosa percussão.

Se você ainda não viu, veja aqui em primeira mão:

De repente alguns vídeos desses caras começou a viralizar e a página do facebook da banda já bateu mais de 200 mil curtidas. Nada mau, não? Acabaram de gravar seu primeiro disco. Leo P (sax) tem 22 anos de idade e Matt Doe (trompete), 21.

Mas esses fatos todos são interessantes, mas não surpreendentes. Ambos são alunos da Manhattan School of Music e gravar um CD hoje, não é nem tão complexo nem caro quando era 10 anos atrás. Também não é tão surpreendente essa mistura de música eletrônica sem eletricidade com ritmos africanos. Não é algo que músicos se propõem a fazer todos os dias, mas não é impensável, apesar deles terem batizado seu estilo de Brass House (acredito que House seja em referência ao estilo de música eletrônica e Brass é a tradução do que conhecemos por metais).

Interessante aqui é o fato de que esta banda é teve uma experiência muito real e eficiente de tudo o que uma empresa grande paga milhões de dinheiros para poder fazer. E eles recebiam uma graninha por isso.

Para uma empresa qualquer colocar um produto novo no mercado é uma batalha épica. Tudo tem que ser calculado e parametrizado para que esse produto possa ser produzido em escala industrial, o que possui um custo alto, e entregue na porta de um mercado consumidor que o compre permitindo uma margem de lucro. Sim, empresas podem ser gigantes e obter lucros fantásticos, mas não é raro um produto mal planejado afundar em vendas e causar prejuízos incríveis. Você sabia que a Kodak tentou fabricar óculos? Grande fracasso. E um tal Cremutcho? Outra bomba.

Nas artes o processo não é esse, claro. A arte surge de fontes emocionais. Mas esta banda em particular teve uma oportunidade de pesquisa para a qual ainda não existe tecnologia disponível. Nas entrevistas que eles deram (tem uma aqui e outra aqui – ambas em inglês, infelizmente), relatam longuíssimas horas de trabalho, que consistia em o tempo todo basicamente e uma relação muito próxima ao público. No metrô de NY passam milhões de pessoas todos os dias de todas as idades, etinias e classe sociais. E a partir desse público, a banda conseguiu notar uma tendência de quais pessoas paravam para prestar atenção. Mais importante do que isso, com as longas horas de apresentações na plataforma e a pressa do público em chegar em seus empregos, eles podiam experimentar com as músicas e testar cada diferente aspecto das composições e técnicas.

E a cada pequena mudança, eles podiam ler a reação do público, sacando aquilo que o público recebia melhor e gostava mais. Isso, meus amigos, não tem preço. Nenhuma empresa consegue, ainda, saber o que o público esta achando de cada produto em tempo real.

O começo da carreira dos Beatles foi semelhante. Quando eles ainda não eram os Beatles, fizeram uma longa tour por botecos e inferninhos da Europa e refinaram longamente as canções e união da banda.

A banda Too Many Zooz chegou ao resultado que queria sem nenhuma pressão de produtores, agendes, mídia, nada. Mas não fizeram nada sozinho. Contaram com milhares de opiniões. Provavelmente algumas bem sutis como uma diminuída na velocidade ao passar pelos meninos.

É uma rara situação na qual o artista pode trabalhar e sintonizar sua arte com o público e, acredito, sem comprometer sua integridade. Eles preservam o seu estilo.

E por falar em estilo, saca só a dança:

https://www.youtube.com/watch?v=etecwUrpUcA

 

Comentários

comments