Eu gosto muito de abordar o tema do sucesso nas artes, como eu já fiz em outro artigo aqui no site uns seis meses atrás. E este assunto não vai se esgotar tão cedo, por que é bastante complexo e merece muita atenção.

Para esticar o assunto, hoje eu vou pegar emprestado um trabalho sério de pesquisa dos outros para o meu site. Neste vídeo produzido pelo lindamente pelo Guia do Ator (que é site, página no facebook, canal no Youtube, etc), os entrevistados (todos atores expressivos) respondem a pergunta simples: o que é sucesso?

Os depoimentos são extremamente esclarecedores e inspiradores, não só para atores mas todos os artistas. São conselhos que caem na categoria de “se eu soubesse disso quando estava começando…” o que é sempre útil. As opiniões variam muito sobre o que é sucesso, o que é um problema, uma vez que para obtermos sucesso na nossa carreira, temos saber o que é esse sucesso. Ou, melhor dizendo, temos que saber onde queremos chegar.

E não é fácil saber onde chegar.

Segundo a opinião desses prestigiados profissionais, sucesso pode ser muitas coisas, mas definitivamente não é fama ou dinheiro.

E eu semi discordo em algumas partes pero no mucho sem discordar totalmente.

Pausa para um argumento filosófico: nos dias de hoje as discussões nas redes sociais são sempre reduzidas ao preto ou branco; ao sim ou não; ao isto ou aquilo. Não pague este mico você também! Não leia só as manchetes e forme sua opinião. Todos os aspectos da vida são mais complexos do que isso. Leia muito, pense, reflita e não entre na manada que corre ou para um lado ou para o outro.

Entendeu?

Entendeu?

Fim da pausa, de volta ao assunto original: sucesso.

 

Algumas notas sobre a fama

Sucesso tem a ver com fama. Mas não essa fama que é propagada aos quatro ventos. Somos um país com um mercado de consumo tímido. Talvez seja herança do protecionismo e do ferrenho controle da ditadura militar, período no qual só havia no Brasil seis ou sete canais de televisão, dois quais metade não pegava quase em lugar algum, uns poucos jornais e rádios de pouca expressão. Essa situação durou bem até os anos 90. Talvez por esse motivo, nunca houve no Brasil atenção para segmentos e nichos de mercado, um conceito velho no marketing, que separa as pessoas de um mercado de consumo por dados demográfico e grupos de interesse. É o famoso “mulheres de 15 a 25 anos da classe C”, porém um pouco mais elaborado do que isso.

Antes de se pensar em nichos de mercado, o que se pensava era em termos absolutos. Um marketing de massa, por assim dizer, no qual algo servia para todo mundo ou para ninguém. Se houvesse uma revista especializada neste segmento de mercado nos anos 80, poderia se pensar em produtos para essa mulher. Não havia. Hoje, ainda bem, existe aos montes. Mas mesmo assim, pessoas não se acostumam a pensar nisso. E nenhum artista considera-se sucesso obter fama apenas entre adolescentes, ou apenas entre góticos ou os surfistas ou entre as mulheres de 15 a 25 anos da classe C. O que é uma pena, porque ser produto de massa não é fácil. Estar na Globo em horário nobre, o que é considerado fama, é um objetivo distante.

Abre parêntese. O horário nobre da Globo hoje atinge uma média de 8 milhões de pessoas (lembrando, no Brasil somos em 205 milhões – mais ou menos) enquanto a capa do Uol atinge ao longo do dia 9 milhões. E todo mundo está sacando isso. Veja o que pensa esse publicitário aqui. Fecha parêntese.

O público de massa, como você deve estar imaginando, não é exatamente um segmento único. Entre essas 8 milhões de pessoas tem ambos os sexos; várias faixas etárias; várias faixas salariais e muitas outras características que os diferem. Neste momento vale a crítica de que todas essas pessoas se comportam como uma manada, mas deixemos esse assunto para outro dia.

Para ser aceito por todas as 8 milhões de pessoas ao mesmo tempo é preciso ser um produto de massa. Nas tardes de Domingo, o Faustão tem muitas atrações que precisam atingir todas essas pessoas ao mesmo tempo ou então o consumidor troca de canal com 1 dedo sem gastar sequer 1 caloria. Ou, pior, saca o telefone do bolso e vai para o Facebook falar mal da atração!

Neste momento, o artista em busca de sua realização pessoal pensa que para estar no Faustão tem que ser muito porcaria e eu que não quero me reduzir a esse lixo. Verdade. Ou, pelo menos tem que saber adaptar-se a essa realidade sem comprometer sua arte, o que não é simples. E, lógico, se chegar a esse ponto, será duramente criticado por estar “se vendendo”.

 

Fama, deusa romana mensageira de Júpiter possuía 100 olhos, 100 ouvidos e muitos olhos em suas asas, mas aparece em uma versão bem mais gatinha na cúpula da Faculdade de Artes Visuais em Dresden, na Alemanha, com a boca no trombone.

Fama, deusa romana mensageira de Júpiter possuía 100 olhos, 100 ouvidos e muitos olhos em suas asas, mas aparece em uma versão bem mais gatinha na cúpula da Faculdade de Artes Visuais em Dresden, na Alemanha, com a boca no trombone.

Mas o que é um artista sem um público? O que se faz da arte que é enviada mas não recebida? Não rebate em outra pessoa para ser apreciada? Por sorte a medida do sucesso não é o volume de público aos milhões. Mas dizer que o público não tem parte nesse processo é ingenuidade. A Deusa fama tinha como função contar os feitos heróicos dos deuses para todas as pessoas do mundo. Mas o trabalho dela era mole. Estima-se que a população mundial em 400 antes de Cristo era de apenas 200 milhões de pessoas.

Atingir com sua arte 200 milhões de pessoas não seria nada mal. Mas, como publicitário e fã das possibilidades da segmentação de mercado, eu pergunto: você está atingindo as 200 milhões de pessoas certas? Pessoas interessadas no seu trabalho? Neste momento vale mais impactar a todo mundo ou impactar profundamente alguns? Lembre-se, memória do povo aí é curta, o controle remoto está bem ao alcance da mão e o Facebook está bem no bolso. É provável que para o público que assiste ao Faustão o seu trabalho não interesse. Mas entre o seu público alvo, é importante ser famoso. E bastante! E aí sim, você pode entender fama da forma como está pensando neste momento, porém dentro do nicho de mercado certo.

Pois é entre os seus fãs que você conseguirá transformar o suor do seu rosto em sustento.

O que nos leva a…

 

Algumas (poucas) notas sobre o dinheiro

Dinheiro é medida de sucesso? Sim, eu acredito que seja. Fortuna, possivelmente, não. Mas zero de dinheiro ao longo de toda uma carreira artística talvez não seja um bom indício. É claro que ninguém entra em profissão alguma pensando em quanto de dinheiro poderá ganhar por dia. É a receita para o fracasso e depressão.

Imagino que também que, você, artista, não tenha buscado uma carreira artística em busca de grandes fortunas. Tornar o seu único propósito em vida ganhar dinheiro é exigir muito pouco de si mesmo. É o que dizem esses atores no vídeo acima. Ao mesmo tempo, o clichê do artista faminto que não recebe apoio de ninguém e batalha contra tudo e todos como Don Quixote batalhando contra um moinho não pode ser uma medida do sucesso. Sacrificar-se é nobre, assim como sacrificar possíveis rendimentos em prol da sua integridade artística. No entanto como qualquer outro profissional, o artista que se dedica, que se esforça, que cuida do seu público, terá como efeito colateral um ganho financeiro.

Pense em dinheiro não como um objetivo, mas como um sintoma. Se o dinheiro não está entrando, algo está fora do curso. Não sou eu quem vou ousar dizer que uma obra de arte é boa ou ruim; isto é serviço de crítico e eu sou apenas produtor. Mas pode haver algo errado com a proposta e o público alvo. Ou talvez o público esteja certo, mas não esteja sendo convidado a participar, não está havendo troca entre arte e público.

Ou, de repente, só está faltando um abraço mesmo.

Não há uma deusa romana do dinheiro para nos inspirar nesta busca. Nem Nossa Senhora do Patrocínio (tum-dum-tsssss). Então o artista (e o brasileiro como um todo) precisa aprender que ganhar dinheiro não é crime e não é pecado. Todos nós já ouvimos que é mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha do que rico entrar no reino dos céus, mas não estamos falando aqui de ficar rico. Dinheiro é para sobreviver, obter algum conforto, expandir sua arte, possivelmente gerar empregos e investir em outros projetos.

Não temo deusa da grana, mas tem o Riquinho

Não temo deusa da grana, mas tem o Riquinho

A culpa católica, que pesa na nossa criação desde a colonização faz com que toda vez que alguém começa a encher os bolsos, pensamos que foi às custas de dor e sofrimento… dos outros. Por que é condenável ser bem sucedido nas suas empreitadas? Por que o sucesso sempre tem cheiro de desonestidade, de falta de integridade, caráter, etc?

Se todos pensarmos assim, não haverá esperança para que um dia um artista seja bem sucedido na sua carreira, consiga obter uma merecida fama entre seu público específico e seja bem remunerado por isso. E talvez fama e fortuna não sejam medidas de sucesso. Mas tenho certeza que pobreza e anonimato também não são.

Mas, se você enriquecer com o fruto do seu trabalho, não serei eu a condená-lo. Aliás, serei o primeiro a aplaudir.

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