A boa notícia do ano já chegou no comecinho de Março para jubilo de artistas e produtores. Mas, como você me conhece sabe que eu deixei cair no chão meus óculos de Pollyanna Moça muito cedo e, não satisfeito  em ter espatifado as lentes cor de rosa, ainda sapateei em cima delas e da armação dourada com pérolas.

nota: Pollyanna Moça não usava óculos. Mas se usasse, seria rosinha.

nota: Pollyanna Moça não usava óculos. Mas se usasse, seria rosinha.

Ao contrário, ao ler a notícia, eu coloco meus óculos cinza com mira laser, sistema analítico e hyperlinks para descobrir qual é que é.

A notícia é que a FECOMÉRCIO – RJ, ou seja, a Federação do Comércio do Rio de Janeiro, entidade do sistema S (SENAC, SESC, SESI) publicou o resultado de uma pesquisa muito interessante sobre os hábitos de consumo de cultura no Brasil e dá conta de um aumento significativo.

O levantamento mostra que, nos últimos oito anos, cresceu em 100% o número de pessoas que disseram ter ido ao cinema (35%) e ao teatro (12%). Em 2007, primeiro ano do levantamento, os programas tinham a adesão de 17% e 6% da população, respectivamente.

Bom não é? Mais ou menos.

Pesquisa Nacional sobre Hábitos Culturais, realizada em dezembro de 2015 (tem outras, realizadas em outros anos) compara o crescimento de consumo da cultura nos últimos oito anos. Oito. Só aí já me parece boa notícia suficiente. Não porque o aumento seja uma má notícia, mas porque esse aumento está espalhado ao longo dos últimos 8 anos, um tempo considerável no qual temos que lembrar que ouve um aumento populacional e também um aumento de poder aquisitivo geral da população, com as classes mais baixas subindo à classe média.

Isso quer dizer que, sobrando dinheiro no bolso do povo, rolou um consumo maior de cultura. Bom? Depende da sua definição de cultura…

Foram ouvidos 1.200 consumidores em 72 municípios de todo o país, o que representa uma amostra abrangente da população, nos quais:

“Em oito anos, o percentual de brasileiros que afirmou ter feito pelo menos um programa cultural subiu 10 pontos percentuais, de 43% para 53%. Em contrapartida, 47% dos entrevistados relataram não fazer nenhum programa de lazer cultural..”

Agora você já deve estar sentindo onde o meu argumento vai parar. Se ler um único livro ao longo de 8 anos coloca a pessoa nos 53% de consumidores de cultura, essa pesquisa não nos serve para grande coisa. Além do mais, livros ruins tem de toneladas por aí. E ler um livro não torna o brasileiro culto. Ler dezenas e pensar sobre alguns deles, talvez.

A parte interessante dessa pesquisa é observar nas tabelas apresentadas quais os maiores motivos pelos quais pessoas não consumiram algum tipo de obra de arte. Vou te economizar um clique aqui: “Não tenho hábito” responde por um terço dos motivos pelos quais a pessoa não saiu de casa e mais ou menos uns 15% são creditados ao “Não gosto”, o que totaliza já quase metade dos entrevistados.

Ou seja, não provei, não gostei, não quer saber.

E como a gente resolve isso?

Bom, pesquisa nunca traz soluções, mas em geral dão boas dicas do que está acontecendo. Aqui vai uma: cresceu também o quanto o brasileiro considera justo pagar por programas culturais: R$ 37 em um show musical, R$ 34 em um livro, R$ 30 em uma peça teatral e R$ 16 em cinema.

Ou, seja, no seu próximo evento, mire nessa faixa de valores.

Só não sei onde esse povo acha que consegue ir no cinema com R$ 16. Bom, deve ser opinião da fatia da população que nunca pisou em um.

 

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