Vamos falar um pouco de grana? De sucesso? De como chegar lá? Ou não? Na verdade, não, hoje não. Hoje vamos aprender através do fracasso. E é muito difícil aprender a partir dos outros, mas quer saber, a vida é muito curta para cometer todos os erros necessários. Aprendamos com Cláudio Botelho.

Não adianta procurar por ele agora, porque o fim de semana foi tão pesado para ele que ele já fechou sua conta no Facebook. Eu nem recomendaria essa procura. O homem merece um pouco de paz e privacidade, produto em falta no mercado.

Bom, uma coisa de cada vez. Vamos à história completa:

Temos um musical que une as músicas que Chico Buarque compôs para seus próprios musicais (Roda Viva, a Ópera do Malandro, etc). E temos o diretor atuando como protagonista do espetáculo. E em determinada cena ele resolve improvisar uma piada fazendo referência à maior polêmica política da última semana (a saber: impeachment da Presidente Dilma e acusações de corrupção contra o ex-Presidente Lula). Básico, está na boca de todo mundo.

E aí, muito previsivelmente, isso aconteceu:

Logicamente, parte da plateia concordou, parte não. A parte que não, interrompeu o espetáculo, confrontando o ator.
 
Teve detalhes pesados por aí, tipo, quando algumas pessoas seguiam para a saída, o ator vociferou no palco algo como “podem ir, até prefiro”.
 
Aí a baixaria foi completa, com provocações e discussões entre palco e plateia até que a organização do evento efetivamente cancelou a peça. E por fim, Chico Buarque retirou a cessão de direitos de seus trabalhos para o diretor, o que encerrou a temporada (a peça é de 2014) e futuros projetos.
Se você gosta de uma fofoca quentinha e picante, a melhor cobertura do momento fatídico está aqui, provavelmente de uma repórter que estava na plateia. Para versões menores tem o UOL, e o Estadão.
 
E como a internet não tem botão de delete, a história chegou até o próprio Chico Buarque. E não foi nada bonito.
MEME-01

deu ruim

Chicão mandou ver e cancelou a cessão de direitos de uso das canções para este e qualquer outro espetáculo que o diretor participasse.

Talvez seja a hora de dizer que aparentemente, Cláudio Botelho não anda lendo muitos jornais. Ou revistas. Ou ouvindo rádios, ou acessando o Facebook. Ou Twitter. Ou Instagram.

Obras de arte podem ou não ter conotações políticas/sociais/antropológicas/filosóficas. O artista criador desa obra pode ou não ter qualquer posicionamento também. Mas é absolutamente impossível que uma pessoa crie qualquer coisa que não traga um posicionamento, porque tudo que sai do cérebro em direção a uma mídia, necessariamente contém uma carga daquilo que somos e vivemos. A não ser que o artista esteja escrevendo manual de instruções de aparelhos eletrônicos ou placas de trânsito. E ainda assim, tenho minhas dúvidas…

Um ser humano inteligente não pode nunca em hipótese alguma deixar de ter uma opinião sobre a vida ao seu redor. Mas pode decidir ou não externar essa opinião.

Frente à plateia, essa decisão torna-se muito mais delicada, é claro. Você tem que estar pronto para todos os tipos de reações. Cláudio Botelho não estava pronto para nada.

E esse foi só o primeiro erro de uma desastrosa sucessão infeliz. Não por ele ter sido fiel à sua opinião, porque isso é louvável. Mas por ele não estar pronto para mantê-la. Em bom português, ele deu um piti. E isso foi triste. Também vou considerar um erro ele ter colocado sua opinião política acima do bom andamento do espetáculo. Não porque um é mais importante do que o outro, mas porque o espetáculo é compartilhado entre artista e plateia. E a sua opinião, não necessariamente.

Não bastante, atrás do palco, discutindo com uma atriz que o acalmava, ele cometeu seu duocentésimo trigésimo oitavo erro, inflamado, gritando algo que foi gravado e interpretado como racista. Tá por aí na internet, procure e tire suas conclusões. Eu não vou reproduzir qualquer coisa que corra o mínimo risco de ser racista. Espero eu esteja errado.

Todos os erros que o diretor/ator cometeu culminaram, ao meu ver, em não entender a plateia como cliente. Como cliente? Que absurdo! A arte tem que ser mercantilista? Espere, eu explico: a arte tem um cliente sim, o público. E o artista precisa entender isso não porque ele deva agradar o cliente acima da sua criação artística ou acima da sua opinião política, mas porque existe um comprometimento do artista com o público no momento desse contato.

Artista mostrando o comprometimento

O momento em que o artista cria, ele é artista acima de todas as coisas, e tem que ser livre e puro de qualquer influência mercadológica, porque a arte é o espírito da sociedade atual, a essência do ser humano. Mas, no momento em que essa arte sai do estúdio, do atelier, da mesa do artista, ela não pertence mais ao artista. Pertence à troca que existe nesse momento entre os presentes no local. É onde inclusive, a arte ganha novas dimensões. E isso é lindo. E, a meu ver, sagrado.

Além disso, esse é o momento de ganhar dinheiro.

Pensar que o público é um cliente, canso de martelar nessa tecla, é bom para todo mundo. É uma forma de respeito. É um contrato que surge. Aliás, leis do consumidor são muito boas nesse aspecto no Brasil. Vale a pena conhecer.

Se você tiver a coragem de pensar que a plateia está recheada de clientes (e não de uma massa ignorante), você provavelmente se lembre do famoso adágio de que o cliente tem sempre a razão. Essa é uma forma muito antiga de pensar o comércio. E não é verdade. O cliente nem sempre tem a razão.

O cliente está disposto a abrir mão de seu dinheiro em favor de um especialista que o leve à melhor solução para aquela situação. E, oras, se o especialista é você, como o cliente vai ter razão?

Nesta hora é melhor pensar um novo adágio: o cliente nem sempre tem razão, mas precisa sair satisfeito.

No caso das artes, o cliente nem sempre precisa sair satisfeito, afinal, nem toda arte tem o propósito de abastecer um ego. Mas precisa sair diferente do que entrou. Ou então, a arte não serviu para nada.

Agora, você já ouviu falar de alguém que mudou de opinião política?

Respeite e dialogue com o cliente e ele vai voltar para te dar mais dinheiro e prestar atenção em o que você tem a dizer. Imponha, e ele vai sair se sentindo por baixo. Vale a pena ganhar uma discussão dessas no berro?

—– Atualização —–

Alguém foi entrevistar o Cláudio Botelho e deu a ele um espaço para contar seu lado da história e ele fez a única coisa que não deveria: colocou a culpa no público. Tem que aprender com o Rodrigo Hilbert, Cláudio!

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