Me chamou a atenção esta semana uma reportagem no UOL sobre uma galeria de arte brasileira. Ali tem algumas coisas interessantes sobre como a galeria encara seu trabalho, o que é muito bom saber.

Resumidamente, a galeria Nara Roesler é uma galeria nascida no Recife e que está comercializando obras brasileiras na casa dos milhões de reais. Interessante, hein? E qual será o segredo do sucesso? Bem, sucesso, muito provavelmente não dependa de segredo, mas sim de muita dedicação e trabalho, sem contar com uma excelente visão de negócios.

eu não entendo nada de arte contemporânea...

eu não entendo nada de arte contemporânea…

A reportagem está no link acima, então vamos ver o que tem na visão de negócios deles:

“Não nos consideramos uma galeria que aposta na descoberta do trabalho de um jovem artista. Há exceções, mas queremos ajudar quem já tem carreira estabelecida”

Aqui tem muito espaço para interpretação do que é um jovem e o que é uma carreira já estabelecida, mas dá para sentir que encher uma galeria com obras de desconhecidos não faz parte do perfil deles. Isso é porque o desconhecido, iniciante, não atrai o cliente para dentro da galeria. É uma técnica antiga de pensar o comércio. Mesmo shoppings, os templos de consumo, sempre têm lojas “âncora”, que são as marcas já conhecidas do público. O artista promissor será muito bem recebido na galeria, mas tem que cumprir com a promessa. Isso não quer dizer do ponto de vista da qualidade da produção artística, claro e sim do negócio da arte, da possibilidade de atrair clientes e vender bem.

“Acho que se fizermos o nosso dever de casa certinho em Nova York – afinal, o mercado americano é o maior do mundo – temos chances de daqui a alguns anos termos uma operação americana maior do que a brasileira”

A gente sempre houve falar de que a arte tem que ir onde o povo está. Verdade. Mas esse povo precisa ser pagante, ou viver de arte acaba se tornando isso mesmo, viver apenas da arte. Ganhar dinheiro com arte e com cultura não é vilipendiar o seu trabalho, é pagar as contas, se desenvolver e ter uma carreira. O que esta galeria está fazendo é justamente isso, mirando onde o dinheiro está. Mas eles não tem tido problemas com as vendas no Brasil tampouco.

eu realmente não entendo nada de arte contemporânea...

eu realmente não entendo nada de arte contemporânea…

“Além de contar com o clã Roesler, a galeria de São Paulo tem uma equipe de 20 pessoas que cuida, entre outras funções, do apoio ao artista, da produção das exposições e do relacionamento com os clientes”

Talvez isso tenha passado desapercebido, mas o que mais me chama a atenção nessa frase é o fato de que o artista está em uma ponta e o cliente em outra. Ou seja, o artista não é o cliente da galeria. O artista é o fornecedor. O cliente é quem traz o dinheiro. Isso arrepia muitos artistas por aí, insuflados com o desrespeito à arte. Não vejo assim. Entendo que o respeito seja fundamental para lidar com todas as pessoas à sua volta. Ao mesmo tempo não entendo como ser um fornecedor possa ser um desrespeito. Eu sempre entendi a pessoa que está disposta a pegar o nosso trabalho e levá-lo a um cliente pagante como um grande parceiro e às vezes um herói.

Após a menção de que em certa ocasião a dona da galeria foi laçar cliente na calçada da galeria, meu conceito do vendedor subiu ainda mais. É importante lembrar que são pessoas que estão distribuindo arte pelo Brasil e fazendo-a chegar em lugares onde não chegariam normalmente.

E depois dessa, ainda temos mais uma noção importante:

“Lá na galeria, o pessoal do atendimento tem um briefing: quando chegar qualquer pessoa, tem que se levantar e falar um pouquinho sobre o que ela está vendo. Ninguém tem a obrigação de saber nada”

Esse é o momento “que merda viver de arte nesse país sem cultura e sem educação”! Calma que uma coisa é uma coisa e outra coisa e outra coisa. Sim, o Brasil tem deficiências gravíssimas na educação e na distribuição da cultura. Mas não é demérito para o povo não conhecer aquilo que o artista produtor de mais avançado e refinado. Aliás, se aquilo que está sendo produzido não é o maior e mais dedicado esforço do artista, essa obra não merece ir para a parede de uma galeria, certo? E se não é para inovar, ousar, fazer diferente e dar uma chance às pessoas absorverem algo completamente novo, por que fazer arte? Para repetir eternamente o que já foi feito?

desisto!

desisto!

Mais importante do que repetir eternamente o mantra do “povo burro”, é bom lembrar que pessoas são completamente diferentes umas das outras, com bagagens de vida completamente diferentes. E isso faz com que o diálogo da arte com o povo seja riquíssimo.

Então, na hora de pensar em o que levar à público, é sempre bom manter em mente que a cultura é uma oportunidade de comunicar algo novo. E se a obra que merece estar na galeria é aquela que só vai compreender quem tiver todas as mil referências obscuras que o artista usou quando criou, é provável que a obra fique mesmo na parede da galeria. Até o dia que for parar no estoque.

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