Essa é uma pergunta que assusta e para a qual não existem respostas fáceis. Nem no Google aparece muita referência sobre o assunto. Ao menos, não em português.

Pode ser meio dolorido pensar em arte e capitalismo e como as coisas se conversam, mas infelizmente é necessário. Não por definições sobre a arte, sobre a história ou a posição política, mas simplesmente pelo fato de que o artista precisa se sustentar, ganhar algum dinheiro na vida e isso não vem acontecendo.

Toda (e quando eu digo “toda” confiem em mim, é por aí) literatura sociológica, antropológica e filosófica que discute a arte contradiz esse conceito ou foge dele como se fosse acusado de uma CPI.

- Nobres deputados, viemos aqui hoje discutir se a arte é um negócio...

– Nobres deputados, viemos aqui hoje discutir se a arte é um negócio…

Entrar nesse assunto sobre as finanças dos artistas imediatamente inflama gritos histéricos de que a arte não tem que se vender ao capitalismo e que isso é exploração e que a arte vendida tem menor valor e a produção em massa de produtos como esse é que deixam o brasileiro burro, etc, etc. Argumentos exagerados com seu fundo de verdade. Mas aprendemos com o Dr. Sheldon Cooper, partir de uma premissa e extrapolar esse argumento até que ele se distorça completamente é um furo nas metologias científicas.

É frequente a gente achar que só porque algo é massificado e popular, então é de menor qualidade. Mas isso necessariamente quer dizer que o artista que for remunerado pelo seu trabalho é um porco capitalista sem valor artístico? Ou ainda, ganhar milhões com o seu trabalho é a mesma coisa que pagar as contas no fim do mês e sobrar algum para colocar um filho na escola de inglês?

Ou o artista, já que escolhe essa vida, fez necessariamente um voto de pobreza e tem que aprender a viver das migalhas que os programas governamentais eventualmente liberam (e é bom lembrar, programas de governo vão e vem; e quando for?)

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Então, aparentemente, o ganho justo e correto faz parte da vida digna de um artista. E essa renda virá, necessariamente de um cliente. Ah, tá bom, o artista não tem clientes, tem público. Mas o médico também não tem clientes, tem pacientes. E o professor particular não tem clientes, tem alunos. E por aí vai. Mas o dinheiro vem de outra pessoa que não é o governo, que cede bolsas e prêmios e nem do patrão que paga salários.

Portanto, dinheiro que entra e não é salário é faturamento. Não é doação, certo? Faturamento.

Se você está faturando, não tem patrão e não recebe bolsa, prêmio ou incentivo, pode começar a entender que sim, você é dono de um negócio e o seu negócio é encantar e divertir as pessoas. Fazê-las pensar ou  fazê-las esquecer. Mas é um negócio, do tipo que atrai clientes, perde clientes, ganha mais dinheiro, ganha menos dinheiro. Tem lucro ou prejuízo.

Então temos que concordar com Amanda Palmer, a cantora que durante muito tempo foi a campeã de arrecadação de grana pelo Kickstarter quando ela diz que Arte é um negócio. Neste artigo (que está inglês, sorry…), ela relata sua experiência com uma tour de 24 datas com a banda Pomplamoose, na qual obtiveram um prejuízo financeiro razoável, mas por outros motivos foi um sucesso. As contas exatas da grana está aqui (também em inglês, mas como tem os números, dá para entender mais fácil o que está acontecendo).

Resumão: preju de US$ 11.819. Mas teve mais visibilidade nos streamings, mais redes sociais, etc e um faturamento legal através de uma plataforma chamada Patreon, que faz um tipo de mecenato. Ou seja, eles expandiram a base de fãs que eles tinham e agora tem mais clientes potenciais. Tem que aprender a se virar, não é?

Pomplamoose live!

Pomplamoose live!

Lucro e prejuízo fazem parte da vida de qualquer empresa. Da Arte também. Dos artistas também. Mas não é raro que o prejuízo da arte se transforme em algo maior. O lucro não é crime. O prejuízo também não. É a vida. Isso faz com que eu entenda que a Amanda Palmer está certa quando diz “Arte é um negócio”, mais certa do que Andy Warhol, que disse que “Arte é como um negócio qualquer”. Mais ou menos, Andy. Arte é um negócio, mas não é um negócio qualquer. É um negócio com suas características especiais e suas formas diferentes de pensar o dinheiro.

Mas não é um negócio que pode se dar ao luxo de ignorar o dinheiro e ignorar o cliente.

 

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