Esta talvez seja uma das únicas vezes que eu vou dizer para não correr atrás de alguma coisa para a sua carreira. Prêmios, em geral, são fria, por mais que você o mereça.

Pode parecer uma recomendação esdrúxula porque à primeira vista uma carreira toda recheada de prêmios pode ser uma boa alavanca para atingir melhores trabalhos e melhores pagamentos. E os artistas mais conceituados, em geral são laureados com inúmeras honrarias e homenagens.

E isso é o melhor argumento para manter-se longe dos prêmios. Porque não são os melhores que são os premiados. São os bem relacionados. Então, ao invés de tornar os merecedores famosos, estamos tornando os famosos merecedores.

publictrofeuHein?

Assim, ó: conheci o grande escritor e dramaturgo Marcelo Rubens Paiva em uma palestra e ao final, tivemos a chance de conversar mais longamente. Eu estava na época terminando o meu primeiro romance. (e vamos chamar ele de primeiro, ok? pode ser o único, mas vamos fazer de conta que o segundo está vindo). Com o manuscrito embaixo do braço, me comportei como um bom fanboy que sou e metralhei meu ídolo com inúmeras perguntas. Entre elas, perguntei como funcionava os concursos e prêmios, visto que, na minha longa (cof, cof) carreira literária, eu não havia obtido grande sucesso.

Ele me relatou, talvez um pouco cansado de palestra seguida de puxasaquismo, que havia sido convidado para julgar um grande prêmio de literatura (prêmios lá na casa dos R$ 30, R$ 50 mil), concurso esse que ele já havia participado sem sucesso algum. Achando uma grande honra, aceitou, apenas para descobrir que teria que ler TODOS os livros dos 400 inscritos em pouco mais de dois meses o que daria uma média de 6 livros por dia. Ele relatou brevemente esse fato em sua coluna no Estadão. No site a história está mais curta, mas ao vivo, ele contou uns detalhes mais picantes (fica para uma próxima…)

Resumo da história:

– Mas moça, como vou conseguir ler mais de 6 livros por dia?

– Ah, seu Marcelo, o pessoal geralmente indica os livros mais conhecidos, ou dos amigos…

E nesse momento, não estamos dando troféus para os grandes artistas. Estamos apenas tornando grandes os caras que já estavam no caminho, bem relacionados, cheios de contatos etc. É como dizer: ricos não são muquiranas; muquiranas é que se tornam ricos.

Talvez isso não seja uma prática. Talvez este concurso seja micado e a maioria dos outros sejam sérios. Mas, é difícil não encontrar um concurso ou prêmio conceituado oriundo de uma instituição séria que não seja alvo de alguma polêmica. Nem mesmo o famoso Jabuti.

E se o prêmio for realmente cercado de boas intenções, nem sempre isso quer dizer alguma coisa. Na minha meteórica carreira literária, abordei a questão dos concursos de maneira pragmática. Pesquisei todos os concursos da vida, brasileiros e portugueses, fiz uma planilha de excel bem afinada e me inscrevi em todos para os quais eu preenchia o requisito. Montei no escritório uma pequena linha de produção, na qual a impressora não parava de roncar e os envelopes era etiquetados para eu não perder tempo anotando endereços à mão. Ganhei uma menção honrosa em um tal concurso. Em outro, recebi uma ligação me informando que eu ganhar terceiro lugar. Consultei minha planilha e não havia previsão de prêmio em dinheiro. Murchei, é claro, mas o organizador me informou que eu levaria um troféu e pediu me endereço. Tá, já é alguma coisa, afinal. Ao anotar meu endereço, o homem emendou:

– Tudo bem se eu mandar o seu troféu por SEDEX à cobrar? Sabe, somos pequenos, a verba é curta…

Aceitei arcar com a despesa do envio por causa da surrealidade da coisa. Guardei o troféuzinho de plástico durante uns meses e depois foi para o lixo. Pensando agora, eu deveria ter guardado apenas para postar aqui uma foto.

Muitos anos depois, já envolvido com fotografia foi que eu suspeitei desse concurso do troféu de plástico. Talvez eles estivessem buscando apenas ter acervo literário cedido gratuitamente. Nos concursos de fotografia isso é bem comum. Regulamento atrás de regulamento atrás de regulamento estabelecem que o inscrito, vencedor ou não, cede integralmente o direito de uso de suas obras para a instituição que promove o evento. É claro que eles precisam dessa cessão de direitos para divulgar o vencedor em seu material publicitário, certo?

Então para quê cooptar os direitos de todos? Dependendo do tema do concurso pode ficar claro que se trata de alguém querendo receber de graça ou muito barato, um banco de imagens profissionalíssima. Eu vi (mas não participei) um concurso promovido por uma empresa de agronegócios cujo tema era exatamente o plantio que eles mais trabalhavam (soja, café? – não me lembro). Ficou meio claro que eles precisavam de muito boas fotos e não estavam muito a fim de pagar por isso.

Sim, eu estou fazendo o papel de advogado do diabo e buscando ter o maior cuidado com a seleção das informações que eu trago, mas isso não quer dizer que todos os prêmios são uma grande furada. Podem sim, dar um aval de uma instituição comprometida e séria sobre o seu trabalho e até despertar atenção sobre ele, assim como a gente sempre vê nos cartazes de filmes os louros dourados dos festivais internacionais.

Nesse caso, ter muitos prêmios é bom. Se você conseguir manter o ritmo.

Uns anos atrás eu estava ao telefone com um grande ator, palhaço e músico escrevendo um release para o grupo dele para algum tipo de projeto quando eu perguntei sobre os prêmios, para incluir no texto. Ele me respondeu, do alto de toda carreira que eles tinham sim, muitos prêmios de teatro, mas todos eles datavam do fim dos anos 80, começo dos anos 90 e que, depois disso, haviam parado de correr atrás, se inscrever em concursos e etc. Concluía que, se ele mostrasse todo esse trabalho, as pessoas perguntariam maldosamente o que havia ocorrido nos últimos 20 anos, se a qualidade decaíra.

Ou seja, prêmio mesmo quando é bom, é ruim.

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