Quando dizem que a paga do artista é o aplauso, a gente fica puto. Mas e quando isso não vem? E quando vem vaia? Grito? Xingo?

Conheçam, antes de tudo, o pianista André Mehmari, porque é dele que falamos hoje:

Quando eu digo que ele é pianista, olha aí, ele não é pouco pianista não. Está sobrando pianismo na vida do homem. Concorda comigo que são uns bárbaros aqueles que não conseguem entender a beleza que está à sua frente quando ele toca?

Então. Não é bem assim.

O crime (ok, não é bem um crime, mas…) ocorreu em 2013 e como é de praxe, a notícia voltou à tona recentemente no mural do Facebook de algum músico (corretamente) indignado e logo ela se alastrou para outros artistas e a coisa se multiplicou e multiplicou e, como eu tenho muito a dizer sobre isso, venho ao meu site ao invés de fazer Ctrl+C e Ctrl+V nas postagens de todo mundo. No mais, ninguém merece achar que o Facebook é território de discussões saudáveis, certo?

Aliás, o Facebook (todo dono das verdades) rapidamente deu seu veredito: (escolha qualquer combinação de 5 fatores) crianças estúpidas, maldito país sem educação, pais irresponsáveis, falta cultura nesse povo ou a arte nunca terá espaço mesmo.

Eu discordo de tudo e mais um pouco, mas antes de eu assumir a autoria da total, completa, irrestrita e absoluta verdade, vamos contextualizar.

André Mehmari, um pianista campineiro foi convidado a se apresentar pelo projeto “Ouvir para Crescer”, mais um de milhares de projetos culturais incrivelmente bem intencionados e incrivelmente ineficientes para levar “cultura de verdade” para as crianças, porque assim que elas assistirem a uma peça de teatro ou a uma apresentação de música clássica, largarão imediatamente das drogas, da possibilidade de prostituição e estarão, inexoravelmente no caminho da inclusão e se tornarão cidadãos do futuro.

E aí, o pianista foi fazer um recital no qual tocaria apenas Ernesto Nazareth para a platéia de 600 crianças de 10 a 12 anos. Por que, né, minha gente, Ernesto Nazareth costuma fazer muito mais sucesso entre pré-adolescentes do que Beyoncé. Justin Bieber  e NX Zero.

Resultado, a criançada achou mais divertido xingar o artista de tudo quanto é nome (tudo mesmo) do que prestar atenção ao concerto.

angry-mob

Segundo a reportagem do Correio Popular que contou a tragédia, o projeto visa “facilitar o acesso desse público carente à música e ao teatro”. E a noticia não repercutiu muito mais do que isso.

Bem, vamos às considerações mais óbvias:

1. A arte é um direito de todos e todo cidadão brasileiro (mundial) deveria ter acesso à todas as manifestações artísticas, assim como luz, água e internet

2. Eu produzi diretamente centenas de tais eventos e me orgulho de ter feito parte disso

3. Precisamos valorizar a música brasileira, não a Beyoncé e Justin Bieber

Dito isso, o que eu acho bizarro ter que explicar, vamos arrematar o assunto com algumas considerações não tão óbvias, mas que você já deve ter sacado pelo recheio irônico deste artigo:

1. Projetos de levar arte às crianças em escolas NUNCA são de facilitar o acesso às artes. São projetos de impor as artes. Essas crianças não tiveram a oportunidade de ir até o teatro, elas foram arrastadas. Concordo que elas preferem sair da escola naquele ônibus capenga e ir até o teatro ao invés de ouvir um professor mal preparado ensinar sobre a vegetação no inverno da Europa ou sobre a fórmula de Baskhara. Isso quer dizer que, não sendo da vontade das crianças, porque elas deveriam prestar atenção? Mas, mais importante. Onde essas crianças testemunharam alguém prestando atenção nesse tipo e apresentação? Nem a professora estava acordada nessa hora (ou estava gritando com algum coleguinha ou com a cara enfiada no celular).

2. De quem foi a ideia infeliz de achar que crianças entrariam em um concerto de piano solo de Ernesto Nazareth e sairiam renovadas e encantadas e, quiçá, determinadas a transformar o mundo em um lugar melhor, mais acessível e mais democrático para se viver? Aliás, quem foi que achou que elas sequer prestariam atenção? Você conhece alguma criança nessa faixa etária que não seja hiperativa e que, ainda por cima ache que não tem que dar a sua opinião o tempo todo?

3. Desde quando cultura é educação? Na falta de determinar-se exatamente qual é a função da arte na sociedade, a maioria das pessoas sai-se com essa:  cultura é educação. Como? Quer dizer que, eu que vivo nas coxias de diversos espetáculos inteligentes, sou necessariamente um gênio? E os nossos grandes heróis os técnicos de som e luz, são mais inteligentes porque estiveram expostos a todo tipo de manifestação artística? E o faxineiro do teatro? A arte não tem utilidade funcional na sociedade e isso não tem nenhum problema. E não, a arte não substitui e nem sequer complementa a educação formal evangelizadora dura e simples que a gente acha que vai salvar o Brasil. Aliás, a nossa educação burocrática e repressiva, duramente criticada por quem sabe o que está falando, que foi inventada para formar trabalhadores braçais para a era industrial é complementada pelo ballet como?

4. Enfia-se 600 pirralhos em um ambiente protegido. Apaga-se a luz. Hormônios estão começando a despertar. A sexualidade está toda bizarra e aí vem alguém e diz para um pré adolescente “faça x”. Ora, esse caldeirão só pode querer dizer que essas divertidas bestas feras vão se comportar de todas as formas, menos em direção de x. Eu adoro adolescentes e pré adolescentes por causa disso. Diga “A” eles vão lá e fazem “B”, “C”, “Q”, “X” e até “X2 + 2XY + Y2”, menos “A”.pinkflyod5. Se toda arte que a gente entende e respeita é justamente aquela que prega a liberdade criativa e liberdade do pensamento, porque é que você espera pegar um moleque cheio de vida, vestir um uniforme, sentar numa cadeira e ordernar um padrão de comportamento específico e que bata palmas nas horas certinhas?

Então, fechando a conta: você tem um público que não tem nada a ver com a proposta artística, implorando para ser estimulado e dialogar, cheio de vontade de participar das coisas, propõe uma tarefa meio besta, fora do ambiente de repressão normal (a escola), leva eles para um lugar escuro, no qual ninguém está vendo, filmando, gravando, os professores não estão nem aí, os pais estão longes e pede para que eles, protegidos pelo anonimato e pela força da maioria e você espera bom comportamento?

Mas o culpado é o governo.

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