Às vezes é melhor assistir TV apenas pelas propagandas. A qualidade dos anúncios de televisão no Brasil nunca foi de todo mal. Nos últimos tempos tem melhorado bastante, graças ao esforço de milhares de grandes profissionais das artes (atores, cenógrafos, figurinistas, artistas plásticos, cineastas, etc). Só quem fica de fora dessa conta ultimamente tem sido a música.

Tenho percebido que os publicitários brasileiros, que são muitos e muitos e muitos e ganham toneladas de prêmios internacionais estão com uma certa dificuldade de encontrar músicas que transmitam a sensação que eles estão buscando. É uma galerinha antenada e de olho nas maiores tendências, mas mesmo assim, não conseguem encontrar músicas brasileiras que falam o que eles querem expressar.

Olha só essa da Smirnoff:

Crazy Nights é do Kiss, a banda de metal toda espalhafatosa, rearranjada para ficar mais bonitinha. A mensagem é clara: estamos de fora, mas estamos na farra. Será que não existe uma música brasileira que diga a mesma coisa? Aparentemente, não.

Foi também o que aconteceu com a Mitsubishi para lançar um dos seus sonhos de crise da meia idade:

A música diz simplesmente “eu quero ser jovem para sempre” o que é o recado perfeito para o tiozão que tem bastante dinheiro e quer viver grandes aventuras no final de semana, sem sujar o mocassim.

Você pode estar pensando que essas são propagandas internacionais mesmo e, como os mesmos produtos estão no mundo inteiro, basta trocar umas legendas do vídeo e rodar o planeta com ele. Verdade, nem sempre as empresas se dedicam a fazer anúncios regionalizados. Um dos motivos para isso é que os publicitários gringos querem reduzir custos de produção, o que faz lá certo sentido e não podemos fazer nada a esse respeito. Mas às vezes os gringos podem estar preocupados que propagandas regionalizadas não transmitem a mesma mensagem ou que não tenham a mesma qualidade. Aí é grave. Aí é com a gente.

Mas e os produtos nacionais, as empresas nacionais? Bem…

A FIAT queria aqui transmitir uma sensação gostosa de fim de semana, alegria, brincadeiras, etc. Por isso deu cara a esses peixinhos malucos e mandou aí um reggae alegrinho para cima. Esse vídeo inundou a TV em 1997. Fool Around é uma música brasileira, composta por Dudu Marote (produtor dos discos do Skank e do J Quest) e interpretada por Dagô Miranda.

Uns poucos anos para frente, conhecemos essa daqui:

Isso foi quando o Mercado Livre estava começando a dar seus primeiros passos. A trilha para lá de fofa é de uma cantora Canadense chamada Aselin Debison, que na época dessa música ainda era uma pirralha. Claro que a trilha tinha que ser fofa para combinar com o genial roteiro do cara que se prostitui no Mercado Livre (Ele vendeu amor, oras. Isso não é prostituição?)

Eu não fiquei aqui fazendo o exercício de quais músicas brasileiras seriam adequadas para essas propagandas. O que me preocupa mais com a história é que, ou os publicitários andam muito mal informados ou a música brasileira realmente não tem conversado com o público em uma forma plural o suficiente para que sirva de “cardápio” para as muitas mensagens possíveis.

É lógico que agradar a publicidade não é o motivo para se fazer música. Mas é um sintoma de que a mensagem não está bem espalhada.

Portanto, alguém está ganhando uma grana em direitos autorais com essas músicas (e não é pouca grana), mas não são artistas brasileiros.

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