Coisas que só o Brasil pode fazer pelas artes plásticas

Vamos combinar que o Brasil é um país único em vários aspectos. E como o pessoal diz pelaí, o brasileiro deveria ser estudado. Não levando em consideração que existem especialistas na antropologia para isso (Claude Lévi-Strauss um deles), tem coisa que deveria ser mesmo objeto de estudo. Tipo o que o Brasil faz e deixa de fazer com as artes. Tipo esse treco pavoroso aí ao lado.

Tipos essas porra aí

O que estamos fazendo com as artes?

Não é nenhuma novidade que o Brasil sofre de (ou será que causa?) um cenário caótico para as artes. Não é só a estrutura precária, a falta de incentivos, o público sumido, etc, etc. Tem também o governo e a justiça se metendo onde não deveria e não cumprindo com o que devia.

Recentemente, Ana Smile protagonizou ambos. Quase. Mais ou menos. Vamos ver: Ana Smile, ou Ana Paula Dornelas Guimarães de Lima, teve seu trabalho proibido de ser produzido, distribuído e comercializado pela 9ª Vara Cível de Goiânia a pedido da Arquidiocese de Goiânia. O motivo? O mesmo de sempre, é claro:

É claro que alguém ficou chatedado

É claro que alguém ficou chateado. Adivinha quem.

Aí a gente grita “CENSURA!!” bem alto e começa a discursar como se o mundo fosse acabar por culpa desse país. E esse país isso. E esse país aquilo. É óbvio, ver uma artista sofrer esse tipo de ação simplesmente pelo fato de que ela fez aquilo que ela acredita é ridículo. E a argumentação do processo parece ser beeeeeem fraquinha, então a gente tende a defender o trabalho dela, afinal isso também nos aflige.

E de repente, a gente descobre algumas outras coisas com o desenrolar da história, graças a onipresença e onipotência do deus internet: o trabalho de Ana Smile tem um paralelo no mundo. Soasig Chamaiallard também usa as mesmas estatuetas confrontadas com os ícones do pop. E, aparentemente, também sofre pelo debate polêmico que esse trabalho provoca, mas não por nenhuma ação na justiça.

Compete aqui uma longa discussão sobre direitos civis, liberdade religiosa, liberdade criativa, censura e etc. Mas não vou entrar nessa bola divida. É assunto muito complexo para umas poucas linhas aqui.

Há, porém, um fato interessante. Antes da proibição pela justiça (e a ameaça da multa de R$ 50 mil), Ana Smile vendia muito bem. De uma artista pouco conhecida, ganho uma certa projeção nacional. Foi exatamente o que aconteceu com a performance Macaquinhos (prepare-se para imagens pesadas e, definitivamente, não adequadas para o ambiente de trabalho ou crianças).

Macaquinhos é uma performance na qual os artistas nus exploram os corpos uns dos outros através do anus… Como? Bem, leia aqui e veja se você consegue entender essa próstata proposta.

Será que estamos diante da fórmula do sucesso?

Será que tem que ser polêmico ou ofensivo para fazer sucesso? Ou tem que ser bom de marketing? Bom, Nem os Macaquinhos e nem as estatuetas de Ana Smile foram amparadas por atividades de marketing. Mas foram presença maciças na internet, nas redes sociais e na imprensa.

Então foram ofensivas e/ou polêmicas. Sim, para alguns grupos de pessoas, já que não dá mesmo para ofender todo mundo o tempo todo. Bukowsky bem que tentou! E ser criticado é fórmula para o sucesso? Não, nem tanto. Afinal haters estão aí para provar que chega uma hora que críticas ácidas acabam virando parte da paisagem e ninguém mais presta atenção. Muito menos a imprensa, que anda entediada e perdendo espaço largo para a internet. Algumas notícias bombásticas alastram pelo twitter ou pelo facebook rapidamente e só muito tempo depois é que a imprensa tradicional consegue entender o que está acontecendo e vai tentar correr atrás, coitados.

E como eles não tem lá muito mais o que fazer para atrair leitores, melhor é apostar nas coisas que já estão na boca do povo mesmo. As pessoas precisam se exprimir e disputar popularidade, certo? Vamos dar espaço no UOL, no G1 e no Terra para os haters desabafarem.

Então a fórmula secreta ficaria assim:

 

coisas ofensivas para um pequeno grupo + imprensa entediada + redes sociais enfurecidas = sucesso

Parece absurdo? Eu não diria tanto. Foi o que o Dan Brown conseguiu com seus bestsellers. Ele ofendeu a igreja católica o suficiente para gerar grande comoção, mas não ofendeu o suficiente para ter seus livros proibidos e censurados (taí uma habilidade sutil – irritar as pessoas na medida certa). Religiosos ficaram putos, inundaram as redes sociais e a imprensa percebeu o que estava acontecendo e foi noticiar o fato. Senão o fato do livro existir, ao menos o fato da polêmica existir. E mais imprensa, por enquanto ainda quer dizer mais divulgação. E quando Holywood sacou que já havia uma vendagem agressiva, porque não transformar tudo em filme?

E não vamos esquecer outro fenômeno editorial, o livro “50 Tons de Cinza” e suas duas óbvias sequencias, que também parece cair mais ou menos na mesma fórmula.

Será que o ideal é o “fale bem ou fale mal, mas fale de mim?” hummmm….

Está quase parecendo que, ao produzir arte, ao invés de buscar um público que aprecie seu trabalho, melhor buscar um público que o odeie! Parece fácil cair nessa esparrela de reduzir tudo à fórmulas e aprender e não perder a oportunidade de reclamar que o mundo é injusto. Bom, o mundo é injusto, sim, mas este raciocínio não se aplica a todas as obras do mundo, mesmo as contemporâneas. Harry Potter é um fenômeno que surgiu e sobrevive sem ofender (quase) ninguém.

… e Harry Potter e todos seus amigos bruxos foram direto para o inferno por praticar bruxaria.

 

atualização: é lógico que ninguém deixou essa flagrante forma de censura passar em branco. Não rolou grandes protestos, mas rolou um belo manifesto.

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