Crowdfunding, vulgo financiamento coletivo, seu criado. A essas alturas do campeonato você já deve ter ouvido falar de que se levar seu projeto cultural a um site desses (e olha que tem vários), as pessoas terão a oportunidade de financiar seu trabalho, assim, igual a conta no bar, se for bem distribuído para todo mundo, não pesa para ninguém.

E se a ideia é assim tão boa e tão fácil, por que ainda existe Lei Rouanet? Por que a gente continua brigando por verbas de financiamento das artes e cultura? Por que não tem um desses em cada esquina? Obviamente, porque o modelo não é perfeito. Mas funciona. Um projeto cultural, como conversamos aqui, pode ser levado a qualquer plataforma ou edital ou lei de incentivo ou qualquer outra coisa antes de se tornar uma realidade. Então vale a pena ter um projeto em plataforma de financiamento coletivo? Vale! E na Rouanet! Vale! E nos editais? Vale! E conseguir patrocínio direto? Vale! E todos ao mesmo tempo? Vale! Mas pode? Fidideus é lógico! Ou você acha que existem soluções mágicas? Tem que rebolar, mano!

Illustration of funny cartoon human creature or animal character's eyes hiding and looking from behind red curtains in theater wooden stage

Agora você resolveu ficar tímido(a)? Vai lá pedir grana, ô meu!

Tá, ok, financiamento coletivo. Whatheporra is this?

Funciona assim: você quer publicar um livro. Vai custar uns R$ 20 mil. Você não tem R$ 20 mil no bolso. Aí você vai até um desses sites (kickstarter, kickante, vaquinha, arrekade, catarse, etc) e explica lá que seu livro vai ser sensacional e que vai ter um monte de coisas bacanas e você está contribuindo positivamente para o mundo e precisa de ajuda. E todas as pessoas que ajudarão receberão algo em troca, como por exemplo um exemplar do livro. Ou um exemplar autografado. E aí, quem contribui com mais dinheiro, recebe outros benefícios (por exemplo o livro autografado + um poster + uma camiseta).

Coisa simples. Basta importunar toda a sua família e amigos e a totalidade das redes sociais.

Algumas pessoas entendem essa modalidade de financiamento como um pedido de patrocínio para constituir-se um bem social, alguma coisa boa para o mundo. Outras, entendem como uma venda antecipada. Se você vai arrecadar R$ 20 mil para imprimir 1.000 livros e quem contribuir com R$ 20 leva um livro, isso quer dizer que você está comercializando pura e simplesmente o seu livro a R$ 20. O que é perfeitamente normal e correto.

E se você quiser criar um restaurante? Mais especificamente uma hamburgueria? A mesma coisa. Basta adicionar um “0” no lugar certo.

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campanha de R$ 200 mil para montar uma hamburgueria

Caso você esteja chegando agora à internet, vou contextualiar. A Bel Pesce é uma empreendedora, tem uma escola de empreendedorismo, é formada no MIT, tem 4 “livros” publicados (mais sobre os livros dela aqui) e enfim, é uma mina que está para lá de bem na fita. Ela juntou-se a dois caras, um deles vencedor do Masterchef e propôs aí uma campanha no Kickante para arrecadar fundos para montar o seu restaurante. O que, dado o naipe dos sócios celebridádicos, ela não precisava.

Mas até aí, nada, porque as leis e regras do mundo existem para quem quer não para quem precisa. É a mesma coisa da Rouanet. As pessoas colocam projetos porque precisam? Não, porque querem? Merecem? Isso é com você. Acho, inclusive, o financiamento coletivo uma boa porque não tem nenhum envolvimento de governo ou coisa que o valha. Quem quer dar dinheiro dá. Oras, o que isso muda na vida das pessoas? Como você pode ver na imagem acima, 76 pessoas acharam por bem dar dinheiro em troca dos benefícios minguados que eles ofereciam (R$ 200 por um hambúrguer, fritas, refri, camiseta, botom tapinha no ombro, abraço amigo, etc). Vai da cabeça de cada um.

A Internet veio abaixo, claro. O implacável tribunal do Facebook julgou a Bel Pesce e seus amigos como culpados pelo crime de serem quem eles são e querer ganhar dinheiro e pronto, eles se retrataram e prometeram tirar a campanha do ar.

Mas por quê? A plataforma é livre. Eles fizeram o que queriam fazer não impuseram nada a ninguém. Ninguém nunca disse que financiamento coletivo é dedicado apenas a arte e cultura ou causas sociais, certo? No mais, quem tem o direito de fiscalizar o que cada um faz com seu próprio dinheiro?

São otários os 76 contribuintes? Ou eles apenas queriam tomar parte em algo maior e se associar de alguma forma a uma marca maior? Colocando a pergunta de outra forma, quantas pessoas usam bonés, camisetas e chaveiros da Ferrari, sem nunca ter nenhuma esperança de comprar uma Ferrari?

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Quantos defendem uma marca apenas porque querem se sentir parte dela?

E, após conclamarem seus fãs para participarem e dar essa oportunidade merreca deles ficarem assistindo da arquibancada e sofrer todas as críticas, deram para trás admitindo derrota, esquecendo-se do principal ensinamento das redes sociais que é o “foda-se, amanhã a polêmica do dia será outra”. Mas, novamente, cada um com seu cada qual (seja lá o que essa frase bisonha signifique).

Mas, Felipe, não devo usar essas plataformas?

Financiamentos coletivos são uma ótima oportunidade de colocar projetos culturais para funcionar. Muita gente já se valeu dele e, como já conversamos antes, a Amanda Palmer quebrou a banca com seu projeto. Será que a Amanda Palmer não teve haters? Claro que teve. Mas não desistiu. É preciso notar aqui que ela é uma ativista da participação das pessoas nas coisas e faz tours dormindo no sofá de fãs em cidades que ela vai. Eu adoro usar o trabalho dela como exemplo, porque ela personifica o que eu acredito seja a única solução possível para a arte e a cultura no Brasil: conexão e interação com o público.

Pessoas precisam de heróis e heróis que expressem aqui que eles sentem e não sabem colocar em palavras. Artistas e empreendedores criativos podem fazer isso melhor do que ninguém. E devem fazer. E aos poucos, pessoas vão entrando no seu time, vestindo sua camisa e participando dos seus projetos. Esquece Rouanet, esquece governo, esquece imprensa. Pense nas pessoas. Pessoas querem embarcar na sua onda e seguir seus ideais.

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nem sempre por uma boa causa…

Se você não tem público, você não tem porque fazer um projeto cultural, já que você não vai atrair patrocinadores na Rouanet, nem atenção da imprensa, nem público para o teatro, nem vender livro, muito menos patrocinadores em financiamento coletivo. Projetos culturais ajudam a vida, mas não salvam ninguém.

Bel Pesce, como celebridade e seus dois sócios, um vencedor de reality e outro blogueiro tem fãs. Muitos. E souberam aproveitar isso. Mas não souberam estabelecer essa conexão. O Kim Kataguri tem lá seus fãs e está usando. E a Dilma Roussef também e soube usar.

E com fãs, você enche um teatro e até vai ficar parecendo que você não precisa de projeto cultural, crowdfunding ou jantar dançante. Mas no Brasil as coisas são diferentes e, sim você precisa sim. Ou, passa a querer para poder fazer algo maior e melhor.

Portanto, comece a cuidar das pessoas. O resto fica bem mais fácil.

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