Eu, que não sou artista, tenho por missão de vida dar uma garibada na carreira do artista e encher plateias. Isso quer dizer que discutir o papel e a conduta da arte não é para o meu bico. Mas eu não posso deixar de reconhecer a pluralidade da forma de pensar sobre esse assunto. E não falta artista que entenda que o papel da arte é a contestação, é braço político e, em última análise, mudar o mundo.

E eu aplaudo em pé quem esteja disposto a mudar o mundo.

Admiro a coragem e admiro a missão de tornar o mundo melhor, mais inclusivo, mais justo e correto para todos igualmente. Especialmente porque mudar o mundo em geral bate de frente com as crenças de algumas pessoas e com os medos de outras. E as reações à mudança podem ser horripilantes.

Entra em cena a Trupe Olho da Rua, grupo de teatro de rua:

Sim, meus queridos, esses personagens são policiais fardados de saia, um deles com a cabeça de um dinossauro que me lembra muito um mascote da Danone.

Tem potencial para dar merda? Ô se tem!

E deu:

Até que era previsível que mais cedo ou mais tarde a PM tiraria a história a limpo. Consta nessa matéria que apenas um dos atores foi levado à delegacia e apesar da apreensão de cenários, figurinos, câmeras e celulares (da plateia inclusive), tudo foi devolvido.

Aparentemente, a peça cumpriu seu desígnio de colocar os dedos nas feridas. E com louvor. Aliás, acho que nada poderia ter contribuído melhor para a mensagem que eles estavam transmitindo do que a ação da PM. Recado dado.

É fundamental salientar que todos têm direto a opinião política. Todos tem direito a expressar essa opinião. E a arte pode ser um dois maiores veículos para tanto, como demonstra claramente a nossa história. A cicatriza da censura ainda visível na pele do brasileiro mostra isso. E essa mesma cicatriz ainda permite que projetos descendo o pau no próprio governo seja aprovado pela Lei Rouanet. Sim, isso eu mesmo vi acontecer. Até a peça do Olho da Rua era incentivada pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Respirem o ar da liberdade enquanto é tempo. A PM demonstra que o clima está ficando rarefeito.

Dado esse acontecimento, a mim cabe pensar daqui para frente. Apesar do grande susto e o que eu imagino tenham sido momentos de tensão, a Trupo Olho da Rua está bem, livre e trabalhando. Então, o que acontece daqui em diante? Como eles não são meus alunos de mentoria, provavelmente não vão se aproveitar desse fato para repercutir a publicidade e se destacar entre todos os outros milhares de bons grupos de teatro que tem por aí.

Ok, ok, nesse momento você deve estar me xingando mentalmente. Pô, Felipe, baita episódio pesado, os caras podiam ter apanhado, sumido como sumiu o Amarildo e você pensando em marketing? Claro, mano! É o que eu sou e o que eu sei fazer! Eu não relevo em hipótese alguma a importância da mensagem do grupo, nem o direito deles de exercê-la, nem o risco que correram. Mas eu sei que daqui para frente, o nome deles vai espalhar-se e pessoas vão reproduzir essa história de da forma que acharem melhor. O que se fala e o que se pensa sobre a atuação do grupo (como artistas e como cidadãos) está à solta na internet. E aí é que entra o direito democrático dos outros de exercer suas próprias opiniões. Marketing se trata de retomar um pouco desse controle.

Que é algo que o Cláudio Botelho não conseguiu fazer. Nem vai conseguir, porque a situação dele só piora. Se você não se lembra, Cláudio dirigiu e atuou em uma peça de teatro que utilizava músicas do Chico Buarque. Durante uma apresentação uns meses antes da Presidenta Dilma sofrer o impeachment, ele a chamou de ladra no palco. Aí, meu velho, a plateia veio abaixo.

Não muito diferente da Trupe Olho na Rua, Cláudio Botelho exerceu seu livre direito de ter e verbalizar uma opinião política. E teve gente que não gostou da opinião dele. Mas, cada um sabe do seu cada qual, como dizia minha vó, em uma das muitas sabedorias de vó que fazem todo o sentido apesar de ser um atropelo semântico. É claro, é diferente você ter uma opinião sobre uma instituição e acusá-la de truculência e expô-la ao ridículo de ter uma opinião sobre uma pessoa e expô-la ao ridículo. Você não pode ofender as pessoas. Mas pode ofender as instituições.

Aí a história do Cláudio se complicou quando ele foi chutar as portas do camarim e soltar os cachorros para quem quisesse ouvir (e gravar). Disseram que ele havia sido racista, ele diz que não e pronto, a situação ficou ruim para ele. E aí o Chico Buarque, que é MEGA petista suspendeu a licença de uso dos direitos autorais das músicas do espetáculo e começou a ficar meio difícil de defender o direito do Cláudio Botelho a ter uma opinião política. Ele pediu desculpas ao Chico e tudo voltou ao normal.

Até que…

E isso porque o cara trabalha com teatro!! Dá até ânsia reproduzir aqui essa imagem. Mas agora você provavelmente já tenha uma opinião formada sobre o ator/diretor e também não está muito convencido(a) do direito dele expressar-se livremente. Ele tem direito de ser anti-petista. Ele tem direito de duvidar da competência e da honestidade dos políticos todos.

Mas, não, não tem direito de ser homofóbico. Primeiro porque isso é grotesco e segundo porque é crime. E dá uma boa dose de cadeia ser racista ou homofóbico no Brasil.

O que a Trupo Olho da Rua tem a oportunidade é de continuar sua carreira, contar seu lado da história e decidir se foca seus esforços em criar espetáculos que a levem na direção que trafegam hoje, de contestar o uso da força e da autoridade ou de ir em outra direção criativa (bom, eles tem até o direito de ir na direção oposta e começar a elogiar a PM se bem quiserem). Isso vai fazer com que eles tenham a possibilidade de influenciar o que as pessoas dizem sobre o grupo. Cláudio Botelho perdeu essa onda. Do jeito que se expressou, ele não consegue dar nenhuma oportunidade para que ninguém pense que no fundo talvez ele seja um cara legal ou um bom profissional, pai de família, bom vizinho, o que seja. Virou inimigo público número 1 ao revelar que no discurso dele, pessoas são desprezíveis e, generalizando, ele conseguiu ofender pessoas em sua dignidade.

Você pode vir a criar espetáculos que falem bem ou mal da Dilma, do Lula, do Aécio, do Temer, do Cunha, da Marina Silva, da PM, do Exército, do McDonald’s e até de escolas públicas. É seu direito discutir a situação política. Não é seu direito ofender pessoas. McDonald’s é caro, faz mal a saúde e danifica o meio ambiente? Ok, talvez sim. A atendente do McDonald’s é uma vaca vendida para o capitalismo? Opa! Aí não!

Ofender, instigar a violência (como o Botelho fez), diminuir pessoas não é política. É ser cuzão.

Encerro essa missiva com dois ensinamentos:

1) “Quando Pedro me fala de João, eu aprendo mais sobre Pedro do que sobre João”, (essa é do Freud) e

2) Não existe botão de delete na internet (pergunta pra Ciccareli!)

Então, vê lá o que você vai falar por aí…

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