Vamos começar 2017 dando uma booooa olhada nessa tabela contendo as músicas mais tocadas nas rádios do Brasil em 2016. 15940805_1221223144600254_1606634201739531047_n

Nesse momento, a não ser que você seja empresário de algumas diversas bandas sertanejas, uma lágrima deve estar se formando no canto do seu olho. Possivelmente uma lágrima de sangue. Mas calma, nem tudo é sertanejo nessa vida! Tem o Justin Bieber na vigésima primeira posição e Anitta em último lugar – dá até para sentir um alento, não dá? Uma esperança? Não? Nadica de nada?

Então dá aqui a mãozinha trêmula que titio Felipe garante que vai ficar tudo bem. Isso, sai de perto da beirada da ponte, precisa pular não.

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– Segura o artista!!!

Mas antes! As más notícias!

1. Qual a fonte dessa pesquisa? Que bagunça é essa?

Aparentemente, a Connect Mix, que fez o levantamento desse ranking é uma empresa séria. Eles fazem pesquisa e monitoramento de mais de 5 mil rádios em todo o Brasil (segundo o site deles) e oferecem dados em tempo real ou então esses relatórios anuais, mensais, diários, semanais, etc. É provável que no Brasil exista mais do que 5000 rádios diferentes, com alcances variados, importância variadas e graus de legalidade variados também, então a gente não precisa acreditar que as informações no site da Connect Mix seja um exato e perfeito retrato do que está acontecendo no Brasil. Mas, cá para nós, nem o IBGE consegue entrevistar 100% dos cidadãos brasileiros, então no mínimo, a ilustração da rádio é muito boa.

As pesquisas que a gente gosta tanto, nas eleições por exemplo, são feitas com amostras muito pequenas. Para eleição presidencial, umas 2 mil pessoas, às vezes 3. Isso quer dizer que se a Connect quisesse fazer uma pesquisa confiável, ela não teria que pesquisa 5 mil rádios, e sim, umas 50, 80. Talvez 100. Isso daria uma amostragem confiável e o resultado é totalmente aceitável com margem de erro.

Então, a real é essa aí.

2. Tá e qual é a novidade?

Nenhuma, na verdade. Sim, o sertanejo dominou as rádios em 2016. E em 2015 também! Segundo ainda o Connect Mix, teve ainda mais do estilo. A única música não sertanejo das 25 mais foi uma do Ed Sheeran em 17o lugar. Meeeesma coisa em 2014, com Pharell Williams em oitavo. Não existem dados para os anos anteriores no site (talvez pagando…), mas dá para notar uma certa tendência, não?

Então, sim. O Brasil é só sertanejo e músicos de qualquer outro estilo ou se convertem ou procuram outra carreira, certo?

Errado.

Vamos às boas notícias.

3. Quem disse que rádio é uma representação do Brasil?

Aliás, quem é que ainda fica impressionado com o que acontece nas rádios? Você ouve rádio? Conhece alguém que ouve? Sabe dizer o nome de algum famoso DJ das rádios atuais? Aliás, sabe dizer o nome de alguma rádio?

O CD não matou o vinil, mas deixou ele agonizando. O e-mail não matou os correios (mas olha, tá perto), o Youtube não matou a televisão (ainda) e, portanto, o rádio, essa tecnologia lúdica e romântica ainda está aí, firme e forte, com espaços cada vez menores, cada vez menos funcionários, e, com certeza muito, muito menos audiência. O rádio está no bico do corvo. Com o pé na cova. Mas não vai morrer, vai apenas adquirir um novo significado para a realidade brasileira. Assim como o vinil é um objeto de fetiche para colecionadores (e, pensando bem, o CD também). E procurando bem é bem provável que se encontre por aí ainda algum tarado que tenha uma máquina de fax funcionando. Máquina de escrever com certeza.

Mas isso não quer dizer que você vai argumentar comigo que o crescimento acelerado da produção de discos de vinil são a maior tendência da indústria da música. Vinil é para algumas pessoas com características específicas. Ou seja, é um nicho de mercado. O que quer dizer que, em termos de representatividade da população brasileira, o rádio é uma amostra bastante viciada.

Volunteer DJ "Cowboy Kelly Williams broadcasts to the patients at Texans Children's Hospital in the Radio Lollipop studios on Thursday, Dec. 3, 2015, in Houston. Radio Lollipop is a fully-equipped, on-site radio station that broadcasts three nights a week to patients' rooms via Texas Children's television system. Each on-air broadcast features games, art projects, storytelling and contests in which kids win prizes. ( Brett Coomer / Houston Chronicle )

Yyeeeeehaaaaa!!!!

Falando em nicho…

4. Mas quem é que ouve rádio hoje?

Obviamente, fãs de sertanejo! Mas só os fãs de sertanejo? Claro que sim! Enquanto as rádios de rock, de blues, de MPB perdiam audiência, as de sertanejo perderam menos audiência ou mantiveram seus níveis normais. Não quer dizer necessariamente que eles cresceram. Apenas se mantiveram da mesma maneira e para os proprietários das rádios entenderam que a aposta mais segura era esse estilo de música. Isso tem uma série de fatores, mas os mais óbvios são os fatos de que pessoas de classes sociais mais altas tem acesso a mais e melhores tecnologias e meios de comunicação, enquanto pessoas mais humildes e em cidades menores não tem outro recurso.

Isso logicamente quer dizer que o ouvinte de rádio não representa o Brasil. O Brasil é (grosseiramente falando) composto de 3,6% da população classe A, 15% classe B, 27,9% classe C, e 53,5% classes D e E, de acordo com uma pesquisa para 2016 de  empresa chamada Tendências Consultoria Integrada.

Mas é muito pouco provável que o perfil do ouvinte da rádio dividido dessa forma. Provavelmente o ouvinte de rádio no Brasil fique nas classes mais baixas, porque afinal um aparelho de rádio é muito barato e o uso, gratuito. Existem diversas pesquisas sobre o perfil do ouvinte de rádio no Brasil, mas elas tendem a se contradizer em alguns dados.

A Jovem Pan jura de pés juntos que é líder de audiência:

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É claro que as pesquisas são fatiadas para mostrar liderança em um determinado segmento (portanto, TODAS as rádios tem uma ou outra pesquisa que indicam que elas são a líder). Nesta imagem dá para ver que no mundo das rádios, 105 mil ouvintes em um determinado horário é o que há de bom na vida. Audiência de 100 mil pessoas é impressionante, mas hoje os Youtubers estão humilhando esses dados.

E isso porque eles somaram as audiências de AM e FM para chegar a esses números!

Mas a parte mais interessante desses dados aí em cima é a divisão de classe. No programa Jornal da Manhã, os ouvintes são basicamente das classes D e E. B e C são uns tracinhos. A classe A nem aparece nos três programas.

5. Cadê o meu público, então?!

Por aí. Pelo mundo. Espalhado em cada esquina. Com certeza alguns estão ouvindo rádio. Mas como você vai saber se você não faz a menor ideia do que seja um público alvo e qual seja ele? Importante saber: pessoas da classe A também gostam de música sertaneja. Ao contrário do que você se esforçou muito para acreditar, o Brasil é um país plural do que parece. Tem de tudo. E não, a “grande massa” não faz isso ou aquilo. A “grande massa” é apenas uma construção coletiva dos meios de comunicação que querem vender anúncio. É bem mais fácil você convencer o anunciante que “todo mundo ouve a nossa rádio!!”. O que é mentira.

Todo mundo está na internet então? Não. Muita gente está, mas nem todo mundo é alfabetizado no Brasil, então sossega o facho aí.

Você talvez queira um dia saber que o seu público alvo são pessoas das classes B e C, predominantemente homens, moradores de cidades de 500 mil habitantes, com ensino superior e fãs de tecnologia e que gostam de carros e leiam 5 livros ao ano e mais uma porção de dados demográficos interessantes, mas isso não vai mudar a sua vida.

Pessoas gostam de música e de envolver-se emocionalmente com seus ídolos. Ponto final. Parta daí e comece a cultivar uma base de fãs. Vale a pena ficar de olho nas tendências de mercado? Claro que sim. Vale a pena comprometer sua integridade artística para criar o que está na moda?

Não precisa nem responder, né?

Então enquanto você começa a se livrar dos seus grandes preconceitos e parar de entrar em pânico quando os sertanejos invadem essa velharia que são as rádios, aqui vai mais e melhores notícias: O Google possui um serviço (lógico) de streaming de música semelhante ao Spotify e eles acabaram de lançar uma playlist contendo 20 artistas de música brasileira que correm o risco de estourar e fazer muito sucesso. E adivinhe só, apenas 2 artistas sertanejo. O resto é o famoso de tudo um pouco.

O que quer dizer que não é exatamente uma boa notícia. É o Google querendo agradar a gregos e bahianos, e desenvolver uma boa relação com a música brasileira. Empresas grandes e sérias sempre buscam adptar-se aos mercados locais e estimular nosso combalido senso de patriotismo. Tenho certeza que o Google Play da Índia também tem uma playlist com artistas indianos e o Google Play russo também e por aí vai.

A playlist está aqui. Mas precisa se cadastrar.

Logicamente, estar em uma playlist de uma plataforma como esta vai atrair muito mais visibilidade para os artistas e possivelmente eles tenham muito mais sucesso mesmo. E quem sabe, façam sucesso com um público alvo interessante, do tipo que vai até show, compre CD, camiseta, adesivo, participe de campanhas de crowdfunding, etc, etc – ou seja, fã que você consiga transformar em dinheiro.

Vou gostar de saber qual será essa visibilidade ao longo de 2017. Quem sabe não bate a audiência da Jovem Pan?

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