Esta semana o famoso de um tal de “o maior espetáculo da terra” anunciou seu fim. O Ringling Bros. (cujo nome completo é Ringling Bros. and Barnum and Bailey Circus e aparentemente nunca ouviu falar do Carnaval no Rio de Janeiro) após quase 150 anos de atividade desmonta a sua lona e vai para casa.

O circo era uma fusão de dois circos diferentes (o Ringling Bros. e o Barnum and Bailey), um mais antigo que o outro, um mais tradicional que o outro. Em sendo um circo (quer dizer dois circos) americanos, já dá para imaginar que dinheiro não faltasse para eles. E é verdade. O(s) circo(s) fundido(s) pertence(m) à uma empresa de entretenimento chamada Feld Entertainment, que, pelo jeito, não é mixaria.

Apesar das fusões, trocas de donos e a compra por essa empresa maior, a tradição do circo foi mantida intacta. Esse é um fato que não deixa de ser mencionado na divulgação do circo. Exaustivamente. Ou seja, faz 150 anos que a marca existe e está em atividade, com publicidade constante e muito trabalho. É uma marca mais antiga e tradicional do que a BMW, que foi fundada em 1916, ou que a Jack Daniel’s que é de 1875. E pelo que parece, a administração do circo mesmo nos dias de hoje sempre honrou a linguagem do circo tradicional, aquele que surgiu na Romênia e foi se espalhando pelo mundo, incorporando artistas de outras culturas.

A administradora, Feld Entertainment, dona do circo e de outras grandiosidades, foi fundada apenas para comprar o circo em 1967 e desde então criou e licenciou muitas outras marcas como Disney On Ice e Monster Jam (corridas de caminhonetes big foot). A empresa possui 3 mil funcionários e já faturou cerca de US$ 1 bilhão, tornando Kenneth Feld um bilionário também. O império Feld realiza 5 mil shows por ano para um público de 30 milhões de pessoas. O circo, que foi comprado por US$ 8 milhões (uns R$ 184 milhões ajustados pela inflação e câmbio de janeiro de 2017) deve fazer cerca de 120 shows por ano.

Dentro desse império, na terra de Hollywood, não falta talento e não falta produção. O circo não abandonou o tema de “o maior espetáculo da Terra” e conseguiu cuidar bem dos figurinos e maquiagem. Apesar de não ser tão exótico como o Cirque du Soleil (afinal eles não poderiam descuidar das tradições), o Ringling Bros. é tão sexy quanto. Não tem como não ser quando o faturamento é tão alto.

Ah, é, e como se isso não fosse o bastante, eles também conseguem comprar o licenciamento de marcas famosas no entretenimento para incluir nos seus espetáculos: dentro da programação normal do circo havia personagens da Marvel e da Disney.

Então, resumindo: marca foda, administração foda, muito dinheiro, marketing eficiente, alta qualidade de produto e de bônus união com outras marcas mais atuais e bem sucedidas.

Como isso pode ter dado errado?

O único revés que o circo sofreu que tenha aparecido na imprensa foi o fato de que, cedendo às pressões de grupos de tratamento ético para os animais, os elefantes foram removidos do show em 2015, como é tendência no restante do mundo (no Brasil animais no circo já são proibidos desde 2011). Por mais que ativistas dos direitos dos animais estejam comemorando, não é em menos de 2 anos que você elimina US$ 1 bi e 150 anos de tradição.

Então o que foi que aconteceu?

O circo saiu de moda.

Sim, só isso. Simples assim.

A Feld Entertainment em sua nota oficial argumentou que o custo de manter o circo é muito alto (dãããããrrr…) e que a venda de ingressos vem caindo constantemente. No Brasil é situação talvez seja um pouco menos crítica, primeiro porque as novidades do mundo demoram a chegar por essas bandas, mesmo as más notícias e segundo porque o circo é um especialista em sobrevivência, especialmente aqueles menores que no intervalo o malabarista sai correndo para a frente para vender pipoca e algodão doce. E, no Brasil ainda tem a Lei Rouanet, que ajuda alguns circos, como o Mirage do Marcos Frota e o Roda Brasil do Hugo Passarolo.

Mas, como o artista sabe, viver de circo é difícil e de vez em quando aparece uma má notícia de falência.

Desconheço números confiáveis sobre o setor do circo, mesmo que tenhamos um deputado eleito com esse propósito. Uma vez que tenha provado que era quase alfabetizado o suficiente para decidir sobre as leis que regem toda uma nação de 220 milhões de habitantes e sétima economia do mundo, o Tiririca pouco fez pelo circo. Mas mesmo que tivesse criado algum magnânimo projeto de estímulo, como a Rouanet faz muito bem, é pouco provável que o formato circo volte a ser o motivo pelo qual pais arrastem seus filhos para fora de casa.

seu público

Seu público

Uma marca de alta visibilidade e tradição podem ser exatamente o oposto do que tiraria os pirralhos mimados da frente do Ipad. O Ringling Bros. é uma marca forte, tão forte quanto a BMW e a Jack Daniel’s. Mas ao mesmo tempo a Nike, outra das marcas mais valiosas do mundo nasceu em 1964. O Starbucks é de 1971, a Apple de 1976 e, bem, a marca mais fodástica do mundo o Google, não tem 20 anos de idade ainda. Tradição não é tudo na construção de uma marca. Se fosse, qualquer uma dessas empresas desta lista seria a maior referência na sua vida, mas você não é capaz de reconhecer sequer uma delas. Nem nunca conheceu alguém que tivesse tido contato com nenhum dos produtos de nenhuma delas.

Ou seja, tradição não significa necessariamente salvação da lavoura. Outras grandes tradições culturais já eram e ninguém sente falta. Desde os circos romanos com os gladiadores e o teatro grego à céu aberto, passando pelos circo de aberrações (que o Ringling teve um bom capítulo) até os cabarés (que eu acho uma pena ter sumido). Mais recentemente, as óperas tem perdido bastante de público, especialmente nos EUA (outras análises sobre a ópera aqui, aqui e aqui). Mesmo que a Feld injete milhões de dólares na ideia, as pessoas simplesmente não vão até lá e pronto. Não tem volume de marketing que consiga mudar isso.

Não adianta uma empresa ser o maior e melhor fabricante de cartolas do mundo, ou de máquinas de escrever. Não vai vender e pronto. É a vida. O Cirque du Soleil pode talvez ser o único circo de alto sucesso no mundo, juntamente com o Circo Popular da China. O primeiro porque rompeu com diversas tradições e criou números altamente inovadores (para o mundo do circo) e o segundo porque é uma empresa estatal chinesa e provavelmente o cidadão chinês que não vá ao circo seja fuzilado.

O fato de que as tradições já não sustentam as grandes empreitadas na arte não significa que essas variedades estejam mortas. Significa que o público pertence a um nicho menor. Beeeem menor. Como acontece com todos os outros formatos da arte, compete encontrar o segmento de mercado e preparar produtos que caibam nesse público. Em outras palavras, circo rola? Claro! Com 1800 pessoas na plateia? Acho que não… Ópera idem, cabarés idem, teatro grego idem.

O público gostou do espetáculo. Ele aplaudiu em pé

O público gostou do espetáculo. Ele aplaudiu em pé.

Seguindo por essa linha de raciocínio, é óbvio que a outra próxima tradição que está com os dias contatos é a orquestra. Manter uma orquestra é um trabalho que só um governo é capaz de realizar. Deslocá-la para espetáculos fora, mais caro ainda. E se os custos não ajudam e o público só diminui, o que fazer?

Há um limite que governos aguentam pagar a conta, infelizmente. Isso deixa a orquestra (e outras manifestações culturais) em um risco muito grande. Qualquer governante surtado pode dar uma canetada e acabar com uma orquestra (ou qualquer orquestra). Músicos protestam, é claro, mas o público nem piscou. Percebeu a fragilidade da situação?

Mas se as opções culturais nas mãos da iniciativa privada correm riscos de fechar por falta de lucro e na mão dos governantes corre o risco por insanidade geral falta de vontade política, é de se pensar que um modelo híbrido seria mais seguro. É como vivem a OSESP e a Orquestra Brasileira, nas quais os governos garantem uma parte da grana e o restante vem de patrocínios. Mas até esse modelo começou a dar sinal de fraqueza. Como o público fica cada vez menor, o patrocinador perde o interesse.

Aparentemente, investidor, administrador, governante e patrocinadores todos parecem ter o mesmo interesse, interesse esse que é a única coisa que o artista não quer nem conversa: público. Sem público não dá. E não é por falta de marketing, grana ou qualidade. Quando sai de moda, sai de moda mesmo. A única opção para o artista hoje é aprender tudo o que puder com as grandes tradições artísticas e começar a usar toda a criatividade que tem para empreender em novos formatos. De preferência levando em consideração que o público de hoje consome cultura por outros veículos completamente diferentes.

Eu só não sei quais novos formatos são essas. Desculpe, turma, gostaria de ter notícias melhores.

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