O assunto quente dessa semana é o graffiti. O prefeito recém-empossado da cidade de São Paulo, cumprindo uma promessa de campanha, resolveu que a cidade teria que ser lindamente coberta com uma camada de tinta cinza, escondendo todos as pinturas não autorizadas. De todas as promessas de campanha, ele tinha que cumprir justo essa…

A caótica harmonia da cidade possui, é verdade, uma grande dose de sujeira e poluição visual que o ante ante prefeito, Gilberto Kassab (ocupou o cargo entre 2006 e 2012) teve um pouco mais de cuidado na hora de faxinar a vista do paulistano e foi atacar a extensiva (e ainda mais caótica) publicidade. Tudo em nome da ordem e provavelmente em nome de sabe-se lá o que sejam os bons costumes (?!)

Infelizmente, João Dória Jr, o atual prefeito, em um surto do que ele acha que seja o populismo, resolveu colocar em um balaio só sujeira, pixo, rabisco e graffiti e mandou descer o pincel nas paredes e deixar tudo limpinho (ou pelo menos no estado que ele acha que qualifique como “limpinho”).

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A faxina estende-se para todas as áreas da cidade, mas em algumas áreas mais críticas, como a 23 de Maio, a coisa ficou parecendo rusga de prefeitos opositores. Toma lá, da cá. Com a ilustre diferença que neste momento está meio difícil de encontrar alguém que dê uma opiniao favorável à remoção dos graffitis.

A camada de tinta cinza foi bastante democrática em sua anti-democracia: cobriu por igual, graffiti, pixo, restos de cartazes, sujeira, poluição, etc, ignorando que ali houvesse obras de arte de grande valor humanístico e, sim até financeiro. Os graffiteiros brasileiros mais renomados Os Gêmeos tiveram mais de uma obra apagada. E não é só porque eles são renomados. A fatura de um trabalho desses é alta, a julgar-se pela boa e velha técnica de dar valor nos brasileiros que tem valor lá fora… Mas é claro que outros graffiteiros atingidos, apesar de não ter muita fama, também são um traço representativo da cultura nacional e tem uma qualidade de trabalho indiscutível.

A lei brasileira hoje já diferencia o grafite do pixo. A lei 9605 de 1998 que definia como tudo a mesma coisa (ver artigo 65) foi alterada pela lei 12408 de 2011 isentando o grafite, mas condenando o pixo, porque afinal de contas, graffiti é arte e pixo não.

E é aí que mora o perigo.

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Tem duas situações das quais o prefeito se apropriou sem propriedade para tal:

1) ele decidiu que os espaços da cidade são dele para fazer o que bem entender e pior,

2) ele é que está decidindo o que é arte e o que não é.

E essa segunda questão me parece mais grave.

Dizem por aí que agora que o Secretário de Cultura Andrea Sturm chegou à brilhante conclusão que toda aquela tinta cinza era cinza demais para a avenida, vão voltar a negociar com os graffiteiros e que vai ter espaço para a arte, mas não para o pixo. O que só nos leva a questionar onde está a fronteira entre uma coisa e outra. O que é graffiti e o que é pixo? O que é arte? Onde ela começa e termina? Quais serão esses espaços? Quem serão os queridinhos a serem selecionados para as novas áreas? E por aí vai.

Para começar a briga, o pixo é uma transgressão. É um grito de rebeldia e sim, está bem próxima do vandalismo, uma vez que pressupõe exatamente o uso do espaço público e a quebra de uma caralhada de paradigmas (um deles sendo a posse de propriedades). E ainda tem aquele lance de que quanto mais difícil, mais alto e mais perigoso o espaço pixado, melhor. É uma subcultura toda ainda a ser descoberta. E esses caras tem cada um seu traço e sua língua. E entre eles, eles se entendem (em geral).

Dá para entender melhor essa vida neste documentário sensacional (te prepara que tem mais de uma hora):

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Se o pixo nasceu do mesmo berço que o graffiti, para vandalizar transgredir e criar um espaço de discussão, por que é tão condenável? Mais importante, por que a arte que transgride tem que ficar em segundo plano? Tem que ser combatida? O Jazz mais experimental não era uma transgressão dos negros americanos contra a música tradicional dos bailes dos brancos? Era à meia noite que o baile acabava, os brancos vazavam e os músicos ficavam no palco madrugada a dentro, destruindo as construções musicais ocidentais. E o Dadaísmo? E o punk rock? E o hip hop?

Além disso, entre o pixo e o graffiti, existe um outro formato. As tags. Onde é que termina o vandalismo e começa a arte nessa escala?

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A resposta certa obviamente não é uma resposta, é uma longa e inútil discussão que foi trazida veementemente à tona em 2008 quando alguns pixadores invadiram uma formatura da faculdade de Belas Artes para deixar lá sua opinião. E causou exatamente aquilo que esperava, demarcou o lugar do pixo. Num ato semelhante, outros caras invadiram também a bienal e pixaram um determinado espaço vazio. A Bienal, também em São Paulo, sabiamente incorporou o pixo na discussão artística.

Mas o ilustríssimo senhor prefeito boneco Ken não acha. Ele sabe o que é arte e o que não é. Cheio de autoridade, não deu espaço para ninguém discutir nada, nem propôs uma reavaliação, nem restauro, nem discussão e nem um adestramento das artes, determinando espaços o que por si só seria um certo contra senso. Há de se convir que o graffiti com espaço pré-determinado é uma contradição, mas comparado com a proibição total, é um mal menor.

Ao lado de São Paulo, a Cidade do Cabo na Africa do Sul é muito rica em graffiti. Na realidade, lá o nosso graffiti (ou grafite) se chama “street art” enquanto a pichação é chamada de graffiti. E para gerenciar a estética do pólo turistico que é a cidade, Street Art é permitido sob licença e o graffiti (ou o pixo) é sumariamente removido por um esquadrão de limpadores (o graffiti squad). Nesta postagem do Facebook, o graffiti squad se gaba de ter uma tarefa delicada em mãos: a remoção de um pixo em um pedaço original do Muro de Berlin…

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… de forma a preservar o pixo original!

Para o azar do Clive, o pixo “214” tem que ser preservado. Mas o nome dele tem que ser removido sob pena de interferir no artefato histórico. Vá lá, é um artefato que precisa ser preservado, e conta uma parte muito importante da história mundial (apesar de eu ainda não saber que apito toca o muro alemão na África do Sul). Mas o caso é uma boa alegoria de como o governo entende a cidade e a arte.

Talvez o graffiti seja realmente uma arte efêmera, constituída para ser destruída a qualquer momento, às vezes pela longa ação do clima, às vezes pela breve especulação imobiliária. Mas por outro lado, talvez essa tenha sido a raiz da arte e não o seu fim. Talvez o graffiti já tenha obtido o status necessário para ser preservado eternamente. Talvez uma parede pintada por Os Gêmeos valha hoje mais do que o imóvel no qual a parede está pintada. Cabe a nós nos aprofundarmos e discutirmos, antes que algum lunático resolva apagar toda essa história e patrimônio, tal como o estado islâmico fez com duas magníficas estátuas de Buda em Bamiyan.

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O que nos leva a uma terceira questão: confiar ao governo a arte é muito arriscado. E frágil. Tanto pela sua preservação quanto por definir o que é arte. Para o Estado Islamico, essa distorção perversa de uma religião linda, essas estátuas de 1700 anos de idade não são arte. Para o Dória, o graffiti também não. Para você, até agora, o pixo também não era. Ou ainda não é. Cabe à gente quebrar o pau nos comentários, fazer fórum, envolver as pessoas, levar abaixo-assinados para o gabinete do Prefeito e o que mais for possível de fazer.

Mas mais importante, cabe ao artista deixar claro que as próprias condições da realização das artes e sua preservação e manutenção pertencem ao artista. O estado paternalista nunca será uma realidade no Brasil e os poucos movimentos que os governos fazem nesse sentido podem virar fumaça de uma hora para outra. E se o governo não tiver verba no ano que vem, como é que fica? E se o governante surtar? Lembre-se que a arte comissionada pela política sempre teve fins bastante específicos de manipulação.

E como bônus dessa discussão, a gente precisa lembrar que em 2018 o fabuloso MASP, que fica a bem uns 3 ou 4 km de distância de onde foram apagados os melhores graffitis do mundo, recebe uma exposição das obras de Jean Michel Basquiat. Vai vendo!

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