Após todos e todos e todos esse artigos super pesquisados e super embasados com diversos links para outras fontes, que é como eu costumo fazer, peço a licença para algo mais cheio de opiniões do que de fatos. Sim, porque apesar de eu ser um grande defensor dos fatos (e tabelas, e estudos, e pesquisas, e links e referências), nem só de dados sólidos vive a pessoa. Aqui dentro também bate um coração, porra! Além disso, é sempre bom lembrar que eu sou produtor (que não é exatamente uma ciência) e formado em marketing (que não nem de perto uma ciência). Ou seja, duas carreiras na malandragem.

E a minha opinião é que você tá pensando em arte da forma errada.

É, eu nem te conheço. Nem sei do que você vive, o que pensa, o que faz, o que sente. Mas eu sei que você é artista, porque está aqui. E tenho altas chances de acertar quando arrisco o palpite de que você fica escandalizado(a) de pensar em tornar sua arte um produto com vendagem alta. É claro que fica, porque a gente não deveria pensar assim da arte. Ou deveria?

Se você tivesse qualquer outra atividade profissional do mundo eu diria que “depende muito do que você está buscando para a sua carreira”, mas no Brasil não tem muita escolha não. Ou vai ou racha. Ou assume que essa porra toda é sua mesmo ou fica no perrengue. Perrengue não quer dizer necessariamente pobreza. Claro, dá para tocar a vida adiante. Mas é uma correria louca, cada dia um leão diferente para matar que estressa a pessoa.

Mas tem conc(s)erto! E não custa caro. Aliás, é di grátis.

Basta resolver esse caralho dessa crise de identidade que você agarra como se fosse um bote salvavidas (e na verdade é uma âncora).

titanic

my heart will go ooooon…

O lance é, ser artista no Brasil é um puteiro desgracento. Você não é patrão, não é funcionário, não recebe bolsa, não em cargo eletivo, é estudante a vida toda ao mesmo tempo em que é professor, recebe cachê que não é salário, nem bolsa, nem doação e ainda por cima é incapaz de explicar que atividade econômica é a arte. Bem, pense você o que quiser, o motivo de eu estar aqui é te explicar que arte é um negócio. E mais: é um bom negócio. E se você não concordar comigo, tudo bem, eu vou continuar te ensinando as manhas dos negócios e como ser bem sucedido nessa atividade maluca que você resolveu fazer a base da sua vida.

O que você tem em mãos nesse momento é uma atividade geradora de renda. Você se dedica ao longo da vida toda, trabalha um monte e obtém renda disso. Portanto, uma atividade que gera renda. Às vezes. Às vezes você se fode. Mas, né, passa. Dá raiva, você xinga e grita e bola para frente. Isso é gramaticalmente igualzinho igualzinho a empreender. Ou seja, montar um empreendimento. Mas o significado espiritual é outro. Quem tem uma atividade geradora de renda tá correndo atrás do prejuízo (enquanto deveria estar correndo atrás do lucro). O empreendedor, ao contrário, sabe o que está fazendo. E o artista que não empreende, está na busca cega. O artista que empreende, tem um plano. Pode não dar certo (logo de cara). Mas o plano está lá.

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Ser empreendedor também não significa ser empresário. Quer dizer, ok, tá significa. Gramaticalmente é igual. Mas espiritualmente, o empresário investe o dinheiro em uma atividade que não é a alma dele. O empreendedor vai colocar essa porra para funcionar nem que seja na porrada. É tratar a arte como um bom negócio, custe sangue, custe lágrimas, custe a mãe. Mas vai ter que rolar.

É muito comum, como é o seu caso, que a pessoa busque empreender uma paixão. Como o cara que gosta muito de cozinhar e vai abrir um restaurante ou a mina que ama malhar e vai abrir uma academia. Nesses dois casos (e tantos outros), eu sou o primeiro a puxar o freio de mão. Tem absolutamente TUDO para dar errado transformar seu tesão em um empreendimento. Gostar de cozinhar não tem nada a ver com ser dono de restaurante. Ser dono de restaurante envolve mil coisas: contratar gente, demitir gente, fazer compras, fazer faxina, conversar com clientes, marketing, planejamento de cardápio, decoração, conferir a concorrência, fazer parcerias, cuidar de gente insatisfeita, apertar custos até sair caldinho, etc, etc. Isso quer dizer que o cara que ama cozinhar tem que arrumar emprego de cozinheiro. Para abrir um restaurante, o cara tem que ser apaixonado por gerenciar restaurante, oras! (Academia idem)

Mas no seu caso é tarde mais e você já está artistando em grande estilo e fazendo mil planos. Bão, dá cá a mão que nós vamos desatar esse nó que é ser artista. A começar por transformar você em empreendedor das artes.Sim, agora a arte é seu business, já que o cozinheiro pode procurar emprego na cozinha de um empreendedor do setor alimentício e a mina pode procurar emprego de instrutora de academia, mas você, infelizmente, não. Não tem muitos empregos por aí. Mas tem um pessoal mais empreendedor, isso é verdade. Você pode colar neles e ir trabalhar. Só que isso envolve: a) ganhar o que eles acham que você merece,  b) contribuir para o sucesso deles e c) realizar o sonho deles. Topa?

Achei que não.

Então se você não está disposto a viver da mão para a boca e quer realizar seus sonhos e ser bem pago por isso, vamos arrebentar alguns preconceitos, tipo aquele de que eu sou artista e a minha arte não está a disposição do mercado. Cara, eu amo essa frase. Já ouvi tanto que até trato ela como parte da família. Então, se a arte não está à disposição do mercado opressor, cruel e vil, está à disposição do que? De quem? Ah, mas o mercado é injusto. É sim. E não é só no Brasil. Todo mundo que precisa de dinheiro tem que entender e trabalhar com o mercado. Bem vindo ao capitalismo, é assim que funciona, é uma merda, você vai adorar.

Aliás, vamos lá: qual é esse gigantesco opressor, cruel e vil mercado que você tanto teme? É um bando de gente gritando “toca Raul”? “Pinta igual ao Romero Britto”? “Dança igual ao Carlinhos de Jesus”? Não, meninos e meninas, o mercado é única e tão somente a reunião de todas as atividades econômicas relativas um determinado setor e isso inclui o fim da cadeia produtiva, ou seja, o cliente final. Portanto, o mercado automotivo é o que se denomina os fabricantes de peças, as montadoras, as concessionárias, as financeiras, as seguradoras, os órgãos regulamentadores (como o DENATRAN), o mecânico ali da esquina, os sindicatos e até tu, que tem ou pretende ter num futuro próximo um carro.

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Investidor do mercado automobilístico; com solda e chiclete suficiente ele passa a indústria automobilística

E, aproveitando que estamos com a mão na massa, diferente de mercado é a indústria. Se o mercado envolve tudo isso, a indústria são apenas os elementos produtivos de um mercado, ou seja, a indústria automotiva são os fabricantes de peças e as montadoras (Volks, Ford,GM, Hyunday, Toyota, Lamborghini, Gurgel).

Cappici?

Se o mercado artístico envolve QUALQUER um que compre um CD, um livro, um quadro, um ingresso, um quadrinho, etc, então isso quer dizer necessariamente que qualquer centavo ganho com arte te faz parte do mercado artístico e que, portanto, sua arte está à venda no mercado.

De hoje em diante você vai ouvir de mim coisas como “Opa, aí tem um mercado” ou “Aqui você encontra o seu mercado”. Isso quer dizer que eu identifiquei um mercado relevante ou promissor. E por isso eu estou entendendo que o trabalho que você desenvolve vai ser interessante para um volume de pessoas que possa te gerar uma renda legal. Como seu empreendimento artístico provavelmente tenha um custo não muito alto, talvez isso nem queira dizer um volume de pessoas tão grande. Isso depende de você determinar seus sonhos e eu te ajudar a identificar qual o formato que pessoas estão disposta a trocar dinheiro por fazer parte desse sonho.

É por isso que, com dor no coração, eu postulo a teoria que não existe mais um mercado para orquestras, ou seja, não há mais um volume de pessoas grande o suficiente para pagar os altos custos das boas orquestras. E o mesmo acontece com o circo.

Então tá, tudo o que você tem que fazer é encontrar o seu mercado, certo? Se você concordou comigo, parabéns, você já não é mais um artista miserável sofredor igual a um corinthiano e sim um empreendedor das artes. Aí está seu plano: encontrar um mercado.

Só que isso não é tão fácil. Para isso você tem que ter alguma noção de marketing e administração de empresas, coisa que, infelizmente, as faculdades de arte não ensinam. Deveriam. Mas imagina o escândalo na sociedade? Bem, assunto para outra hora.

Empreender também envolve outros fatores não muito agradáveis da vida. Finanças. Liderança (sim, você vai liderar algumas pessoas). Leis de incentivo (isso tá na mão!). Negociação. Imprensa. Direitos Autorais. E onde eu aprendo tudo isso? Bom, se você está se perguntando isso, novamente parabéns. Você está almejando algo maior. Você está ciente que tem custos e que tempo gasto não volta mais, então é bom ser produtivo. Pensamento de empreendedor. Aos poucos o plano toma forma.

E a resposta para a pergunta acima é: eu te ensino tudo o que eu sei, mas tem diversos cursos interessantes por aí. Tempos de internet são assim.

Deve ter passado pela sua cabeça “ah, não, isso aí vai dar trabalho” e a vontade louca de se trancar no quarto e estudar indecorosamente aquilo que você está mais acostumado a fazer. Quem sabe se eu não sou convidado para participar de um projeto de Rouanet e ganho uns trocados?

como-sair-da-zona-de-conforto

Isso chama-se zona de conforto e é o maior cemitério da felicidade e do sucesso profissional. É onde boas as boas ideias fazem ninhos quentinhos para se enrolarem umas sobre as outras e morrer em paz. Não é um contra senso o artista querer ser livre para criar desde que não tenha que criar nada diferente? Não, não estou te chamando de medíocre. Sei que não há limites para o que cabe em uma partitura. Mas há um limite para uma orquestra. E esse limite foi atingido umas boas décadas atrás. Também não há limites para o que cabe no papel, na tela, no palco. Mas há um limite para o livro físico, para o teatro de palco italiano, para as galerias de arte. E esses limites estão por aqui em algum lugar. Aliás, veja lá se não é isso embaixo do seu pé.

Os nossos governos tem feito mal e porcamente um esforço mínimo para manter e sustentar as artes e, pode acreditar, não há perspectiva desse apoio crescer. Aliás, não só o risco é de que diminua consistentemente, como também de desaparecer de uma hora para a outra por desvario de qualquer governante depravado. Eu também adoraria viver em um mundo no qual arte e cultura fizesse parte da cesta básica do cidadão. Mas não é o que está acontecendo e acredito que enquanto ainda é possível lutar por políticas pontuais de estímulo, nunca que isso resolveria de vez a defasagem que nós, indústria das artes (hã? hã? pegou?) entendemos existir. A falta é abissal.

Oxalá esteja eu errado. Mas se eu não estiver, nós mesmos vamos ter que arregaçar as mangas e partir para o ataque.

E isso exige você sair da sua zona de conforto. Também há um limite para o que um produtor pode fazer. Se você não tem envolvimento com o público, não tem diálogo, não tem como milagre que eu faça para encher a sua plateia (sem mentir). Também não tem como fazer bater os custos sem bilheteria esgotada. E isso produtor não pode fazer por você. Empresários até podem. Sabe aquela firugra que não manja nada de arte, mas sabe a roupa da moda, o penteado da moda e o que o público quer ouvir? Eles existem, não são muitos e vão criar um formato batido que já funciona. Você está a fim disso?

Imaginei que não.

Então, empreender envolve conhecer mercados (sim, no plural) ou inventar um novo. Envolve ser criativo, inovador e ter muita coragem e cara de pau, porque você vai tomar cuspida na cara. Não de hater na internet. Hater a gente resolve. As críticas mais doídas são aquelas meio veladas meio envergonhadas dos seus próprios colegas que não vão entender nada do que você está fazendo, já que você está fugindo das tradições. Tudo vai rolar do jeito mais difícil, mais inseguro, porque você está trilhando caminhos que ninguém trilhou e nem tem sanguenoszóio sufiente. Envolve fazer parcerias, conhecer outras formas de pensar, de fazer negócio. Envolve cara de pau, envolve ser rápido no gatilho quando a oportunidade surgir, envolve prometer e dar um jeito de cumprir, envolve aprender todo dia uma coisa nova, envolver testar, falhar, dar errado, e tentar de novo e de novo. Envolve fazer mais perguntas do que afirmações e cruzar coisas tão exóticas e malucas quanto marketing, administração de empresas e arte.

Bem vindo, empreendedor.

planfinal

 

 

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