E agora, um rompante de novidade: não é fácil viver de cinema no Brasil. Oooooohhhh, que surpresa! Que exótico!

Só que cinema possui um agravante pesado sobre as demais artes: qualquer 30 segundos filmados nas condições mais simples e baratas, já começa com um custo astronômico. E mais: o cineasta não consegue ir ali na esquina mostrar seu excelente trabalho. Sempre haverá a possibilidade para o músico levar o violão para um barzinho, para um escritor ter um blog, para um bailarino dançar na quermesse da igreja.

O cinema não. O cinema requer bilheteria, requer silêncio, luz apagada e uma pipoca quentinha. E isso está bem difícil de acontecer.

Toda vez que a gente vê sábado a noite as filas enormes no cinema para assistir o último filme dos X-Men, a gente pensa que a vida ali é mole. Não é não. Apesar de todos os números indicarem o contrário! Sim, é esquisito de argumentar algo assim e, mais esquisito ainda eu juntar e cruzar dados que comprovam o crescimento da indústria do cinema só para poder argumentar que na verdade, tá todo mundo fodido e mal pago.

Então vamos aos números!

A indústria do cinema em todo o planeta gira em torno de US$ 38,3 bilhões (dados de 2016). E o crescimento nos últimos anos tem sido tão consistente que há uma projeção de que chegue perto dos Us$ 50 bi em 2020. Só aí já dá para pensar “opa, agora a coisa vai!”

No gráfico abaixo está a arrecadação de toda a indústria cinematográfica mundial, começando em 2011(US$ 32,6 bi) até os dias atuais. A barra em verde representa a arrecadação nos EUA e no Canadá e em amarelo, no resto do mundo.

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Bilheterias mundiais (todos os filmes) – Fonte: MPAA

Mas como você pode imaginar, apesar dos estúdios, das distribuidoras, das produtoras e todo mundo em Hollywood estar felizão, os donos dos cinemas, dos espaços físicos onde a festa acontece, não estão nada felizes. O motivo principal é este aqui:

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Comparação do crescimento da arrecadação da bilheteria entre 2005 e 2011 – Fonte: UNESCO

Este gráfico demonstra o quanto a arrecadação bruta nas bilheterias cresceu na China (linha vermelha) e o quanto cresceu nos EUA (linha azul). Entre 2005 e 2011, ambos os países tiveram um crescimento de faturamento. A diferença é que em 2011 a bilheteria aumentou quase 7% nos EUA enquanto na China o volume de grana que pingou na bilheteria aumentou mais de 700% (isso só 2011!).

Como é possível notar, pelo segundo gráfico, que cobre de 2005 até 2011 e pelo primeiro, que cobre de 2011 até 2015, faz mais de uma década que o cinema não cresce nos EUA.

Do gigante magote de US$ 38 bi que o cinema fatura em todo o planeta, as bilheterias nos EUA ainda são campeãs. Somados, os americanos e os canadenses torram US$ 11,1 bi no cineminha. Mas a China já está em segundo lugar de maiores frequentadores do planeta, gastando US$ 6,78 bi, ou seja, quase dois terços. Neste ritmo não demora para ultrapassar.

Essa granona que os chineses estão gastando no escurinho do cinema é mais impressionante quando encontramos outro dado: mais ou menos 55% desse polpudo valor é destinado ao cinema nacional. Quer dizer, o cinema nacional deles, não o nosso. Sim, são aproximados US$ 3,73 bi em filmes de diretores, produtores e atores chineses.

Como bem observou o The Guardian, Hollywood está perdendo sua relevância mundial. Ou pelo menos, está perdendo mercado, já que a população está indo mais ao cinema está buscando filmes que tenham mais a sua cara.

E como está o cartaz do Brasil neste cenário?

Apesar da economia combalida (mas antes da crise de 2016), nosso país ocupou o 13o lugar na lista dos países que compram mais ingressos para o cinema, com uma renda bruta total de apenas US$ 700 milhões, dos quais 30%, ou seja, US$ 212 milhões, seriam gastos em filmes nacionais (agora sim, filmes brasileiros).

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Países com maiores arrecadação de cinema e participação do cinema local – Fonte Wikipedia (chupa, Argentina!!)

Segundo a ANCINE, a Agência Nacional do Cinema, as bilheterias também tem crescido no Brasil tão consistentemente quanto o resto do mundo e, mais importante, mesmo atravessando a crise de 2016.

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Não é à toa o crescimento: as cidades crescem, a população aumenta regularmente e, mais importante, a produção do cinema nacional também vem aumentando, desde a famosa Retomada, que foi, digamos a recriação do cinema nacional, porque antes disso, só havia Trapalhões e Xuxa e antes disso ainda, só pornochanchada. Desde que se criou a Lei do Áudio Visual para estimular a produção de cinema nacional em 1993, e com derrocada da grande inflação galopante em 1994, não há porque não haver mais produção cinematográfica de excelente qualidade.

Hoje o Brasil produz cerca de uma centena de filmes ano a ano. Ainda bem, a Xuxa parou de filmar e deu bastante espaço para que o resto de nós, mortais, nos virássemos para conseguir um lugarzinho ao sol e, ao que todos esses dados indicam até agora, só vamos crescer.

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É, tá bom.

Claro, fica fácil de equacionar assim: Hollywood está perdendo relevância mundial, o cinema no mundo só cresce, em todos os países a população busca mais e mais o conteúdo nacional e o brasileiro está buscando ir mais ao cinema, já que a crise está acabando. E ainda por cima o Brasil, ao contrário de muitos outros países, possui uma lei de incentivo ao cinema, que ecoa em vários programas de apoio ao cinema estaduais e municipais (basta ver a quantidade de logotipos que aparece no começo de cada filme).

Só que, infelizmente, não é bem assim.

Existe um fator ultra limitante ao crescimento do cinema nacional: o cinema em si. Quer dizer, o espaço, a sala do cinema.

O Brasil quase não tem cinemas.

Se você está olhando em volta desconfiado de que “como assim não tem sala de cinema no Brasil” então você mora em São Paulo, no Rio, em BH ou em uma das meia dúzia de cidades com mais de 500 mil habitantes. No resto do território nacional, é uma grande escassez. O país todo tem cerca de 3 mil salas de cinema. E não são 3 mil complexos de cinema, são 3 mil salas individuais, ou seja, 3 mil telas. E tem esse artigo aqui do Pipoca Moderna que coloca esse número em xeque. Pode ser beeem menos.

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Das pretensas 3 mil salas, ao menos 1.000 ficam no Estado de São Paulo. E isso é realmente muito muito pouco, já que é provável que a maioria se concentre na capital do Estado. Pense nos shoppings paulistanos. Quantas telas tem cada um? Até o Rio de Janeiro, um dos Estados mais populosos do país possui apenas coisa de 10% de todas as salas disponíveis. Nos estados do Centro Oeste, cujas distâncias entre cidades são enormes, a maior parte da população nunca vai sequer pisar em um cinema. Que dirá ter o hábito de frequentá-lo.

Com 200 e poucos milhões de habitantes no Brasil, isso dá mais ou menos 1 sala de cinema para cada 67 mil habitantes, enquanto nos EUA, com suas portentosas 40.547 telas, são basicamente uma para cada 7.900 habitantes. Uma considerável diferença. Com toda sua extensão territorial, o Brasil tem menos cinemas do que o Japão, Espanha e o Reino Unido (Inglaterra, Escócia e País de Gales).

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Maiores produtores de filmes e quantidade de salas de cinema – Fonte Wikipedia – Sentiu a Nigéria?

O Brasil produz 100 filmes por ano, e possui quase 3 mil salas de cinema (depende de quem contabiliza), o que parece meio proporcional, à medida que a gente vai subindo na tabela. A Alemanha possui o dobro de filmes, tem quase o dobro de salas. Exceto que eles tem menos da metade da nossa população.

Nas condições atuais, investir em cinema parece ser a jogada do ano, já que a produção de cinema nacional só cresce, a economia promete crescer de novo e a esmagadora maioria da população do centro oeste, nordeste e do norte nunca sequer viu um cinema, o mercado do cinema global cresce e cada dia tem mais títulos novos sendo lançados, aqui e lá fora. E como se isso não bastasse, A Lei Rouanet possui um programa específico para empresas patrocinarem a criação de salas de cinema em cidades com menos do que 100 mil habitantes, categoria na qual se encontram mais ou menos 95% de todas as cidades brasileiras. Então por que não? Porque não tem 50 salas de cinema sendo abertas a cada dia? Até o governo brasileiro está abrindo novas salas.

No Brasil a maioria das telas de cinema ficam em shoppings, que é um espaço caro para chuchu, o que dificulta a expansão. Isso provavelmente queira dizer que o brasileiro já até perdeu o hábito de ir à cinemas de rua. Portanto, a não ser que alguém abra um shopping na cidade de menos de 100 mil habitantes, essa cidade vai ficar sem cinema mesmo. E eu imagino que assim que surgiu o Netflix na jogada, imediatamente os investidores de salas e distribuidoras de cinema voltaram a alimentar o famoso escorpião no bolso, de forma a nunca mais colocar a mão lá.

Investidor no Brasil é um bicho tão medroso e cauteloso que nem em sucesso nacional eles tem coragem de despejar dinheiro. Em 2013 o excelentíssimo ator e roteirista Paulo Gustavo lançou seu primeiro filme “Minha Mãe é uma Peça”, baseado em sua peça de teatro de sucesso. Para conseguir fazer o filme, como todo mundo que faz filme na vida, ele conseguiu captar R$ 5 milhões em patrocínios. Vendeu 4,6 milhões de ingressos e arrecadou R$ 43 milhões!

Sucesso total, não?

Este ano ele estreou no cinema a continuação, “Minha Mãe é uma Peça 2”, no qual quebrou recorde de bilheteria no Brasil, arrecadando R$ 117 milhões. Ainda assim, para sair de casa, teve que captar quase R$ 3 milhões através da Lei do Audiovisual porque investidores não estavam dispostos a apostar nesse sucesso.

Pois é. Tá com cara que a gente vai ter que começar a aprender a fazer cinema nigeriano.

 

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